Dois grandes amigos já estavam lá pela quinta na mesa de um bar qualquer (e devidamente pé de escada), quando um deles deu a seguinte sugestão:
- Que tal nós dois termos filhos. Vou ter uma menina e chamá-la de Rosa. Já você terá um menino e vai chamá-lo de Cravo.
O segundo amigo um pouco frustrado por não ter sido chamado para montar um bar e confuso com todas aquelas próclises aceitou de pronto.
Rosa despedaçada.
Cravo vira servidor público. E ai do estagiário que o chamasse de doutor Cravo. Não teve filhos, não deixou para ninguém o prêmio da mega-sena acumulada.
Words are not meant to stir the air only: they are capable of moving greater things.
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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
quinta-feira, 9 de maio de 2013
Amanda
- Por que você não têm cabelos?
Por mais que ser estranho numa universidade seja algo bem aceito e até almejado, existem tópicos que não devem ser tocados. Ao fazer a singela pergunta, Apolinário tocava em alguns deles. Claramente, Amanda tinha um problema e seria sensível não apontar para ele. Pena que sensibilidade nunca havia sido um forte em Apolinário.
Sua pergunta lhe rendeu uma parceria para um trabalho em grupo. Este sempre foi um ponto fraco seu, pois poucos queriam trabalhar com ele e quase ninguém voltava a trabalhar após uma primeira vez. O trabalho foi satisfatório, mas a pergunta nunca foi respondida.
Amanda, no entanto, não se distanciou após o trabalho. Ela era do curso de economia, mas por algum motivo estava ali em biologia. Poucas pessoas deixaram Apolinário confuso como Amanda o deixava. Ela sorria e chorava com muita facilidade. Certa vez num dos momentos de choro, Apolinário perguntou se ela queria ver sua coleção de pelos de gatos imprimidos no solo após atropelamento.
Amanda odiava gatos. Achava injusto que tivessem 7 vidas enquanto ela tinha apenas uma e não muito boa. Geralmente quando reclamava de gatos estava reclamando de sua própria vida. De alguma forma acreditava que se fizesse muito isso, Deus a colocaria no corpo de um gato em sua próxima vida como castigo, mas esse era seu desejo. Ela aceitou na hora.
- Não é estranho que tudo termine em morte?
- Não.
O que aquilo tinha a ver com a coleção, pensava Apolinário. Amanda por vezes surgia com essas conversas. Para Apolinário ela tinha uma obsessão em achar estranheza em coisas naturais. Ela o beijou algumas vezes. Dizia que não se podia ter filhos por beijos. Mesmo assim Apolinário ficava mais tranquilo ao vê-la beijar outras pessoas no final de semana. Nem sempre eram homens, mas pelo menos quando o filho viesse, não poderiam dizer ao certo se era dele.
Apolinário nunca havia notado como sua cama era confortável. Ou talvez as outras pessoas não soubessem escolher camas. Amanda não deveria saber, pois vinha dormir na sua com muita frequência, às vezes durante o dia mesmo. Nessas horas Apolinário gostava se aproximar e observar a ausência de pelos em sua cabeça. Ele não entendia porque ela não a cobria. Parecia querer mostrar algo que não estava ali.
- Não é estranho que tudo termine em morte? – Voltava a perguntar por vezes.
- Não.
Amanda se foi numa terça-feira de carnaval. Sua pergunta nunca foi respondida. Ela lhe deixou um chumaço de cabelo de presente. Queria que Apolinário o colocasse em sua coleção. Pois talvez quando Deus se lembrasse de leva-la, talvez se confundisse e a tomasse por gato.
Apolinário
Apolinário. Nome de velho num corpo de criança. Provavelmente se referiam ao seu espírito. Desde os 7 anos gostava de ler autores russos e alemães. Aos 9, escolheu o Fausto de Goethe como obra para ler durante as férias. Chegou a começar a ler sua redação sobre o livro, mas a professora o pediu para interromper. Era um colégio católico, citar como homens se vendem por meros caprichos numa sala de crianças não parecia correto, embora a professora bem que necessitava de alguns caprichos.
Apolinário guardou a redação. O lia toda terça para seu gato que se chamava Gato. História peculiar tinha este nome, pois quando ganhou o bichano, seus pais lhe disseram para olhar para o gato e dizer o que mais se destacava nele. Apolinário simplesmente respondeu ‘gato’, não via nada que se destacasse mais que isso. Seus pais tentaram insistir um pouco mais para que o filho tivesse criatividade. Não deu muito certo. Apenas nomes como ‘focinho’, ‘bigodes’ ou ‘orelhas’, apareceram. Ficou o nome ‘Gato’ mesmo sendo uma fêmea.
Aos 12, após migrar para autores do oeste europeu, Apolinário tirou de um livro que queria ter a morte como esposa. Ficou pensando em formas de tornar isso possível. Casar-se com alguém e depois matar? Não parecia correto, pois se tornaria viúvo e não esposo da morte. Pensou em alguma senhora mais fácil. Má Sorte parecia uma boa opção, mas não se sentia particularmente atraído por ela. Vivia relativamente bem, mas sem luxos; tinha uma gata chamado Gato; tinha orelhas grandes e cabelos negros um pouco revoltados, mas que cediam facilmente ao controle da tesoura de barbeiro. Talvez não conhecesse a Má Sorte bem suficiente para entendê-la melhor.
Tinha livros. Muitos livros. Seu pai não gostava de ler, muito menos sua mãe, mas para ambos parecia correto tê-los aos montes. Boa parte de sua infância foi ao lado deles. Gostava de pensar que eram parte de si, por mais antigos que fossem. Aos 14, fechou seu último livro e decidiu fazer amigos.
Apolinário não fazia ideia do que constituía amizade, mas achou por certo que tudo começava com conversa. Aproveitou a mudança de escolas para tentar puxar assunto com as pessoas de sua sala que ainda não sabiam de sua personalidade:
- Hoje vi um gato morto. Estava estourado, pois os carros não se preocuparam em parar de passar por cima dele.
Decerto esta não é uma das melhores coisas para se dizer em qualquer tipo de conversa. Mas é da natureza humana ser estranho aos 15. Mesmo que você já fosse estranho antes, as pessoas não notariam logo e outras até gostariam da estranheza. Assim Apolinário fez amigos e os desfez aos montes.
A adolescência o deixou impulsivo. Boa parte do tempo decidia por impulso não fazer nada. Sentava-se com os atuais amigos e ficava simplesmente os ouvindo por uma tarde inteira. Isso por vezes durava alguns dias. Quando finalmente Apolinário respondia algo que fora conversado alguns dias antes. Não gostava de guardar opiniões e parecia ter por regra dá-las nos momentos mais inadequados. Seus professores não mais lhe faziam perguntas fora das provas. Pareciam temer o que poderia ser dito.
Aos 16, viu sua já velha gata chamada Gato ser atropelada. Passou dias olhando o corpo do bicho imprimido no chão quase como uma tatuagem. Foi quando Apolinário decidiu estudar as ciências biológicas. Após sua fase de leituras, havia decidido que não havia nada dentro da alma humana ou de sua cabeça. Mas dentro do aglomerado de células que constituíam um corpo, parecia haver um universo de coisas a ser descoberto. Gostava da cor de sangue seco no asfalto. Chegou a fazer uma coleção de fotos disso que desapareceu um dia após sua mãe arrumar seu quarto.
Aos 17 ganhou seu primeiro beijo. Achou que deveria tomar a responsabilidade, mas lhe parecia ser muito novo ainda para ser pai. Ficou mais aliviado quando a viu beijar outras duas pessoas na mesma noite. Não poderiam ter certeza que o filho seria dele.
Ainda aos 17 entrou na universidade para estudar biologia. Seus pais ficaram aliviados por ele não ter decidido simplesmente ficar em casa após o ensino médio. De certa forma o temiam por algum motivo. Seria sua coleção de pelos de gatos atropelados? Ou talvez sua mania de construir coisas. Vez ou outra via um objeto interessante e logo decidia que precisava fazer um por mais simples que fosse.
Chegou a fazer um abridor de latas genial. Pena que sua tia teve metade de seu indicador arrancado por ele ao tentar usá-lo. Apolinário não achava necessário jogar o abridor fora, afinal era inocente. Culpada fora a tia por não saber usá-lo. Apolinário tentou negociar o pedaço de dedo em troca de jogar fora seu abridor, mas antes que pudesse vencer o argumento, o pedaço já estava reimplantado. Aquela tia nunca mais os visitou.
Aos 19, Apolinário conheceu Amanda.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
O Suicida
E no dia seguinte ele decidiu morrer. Não que no dia anterior tivesse acontecido qualquer coisa que o fizesse ter vontade de terminar aquela breve aventura chamada vida. Na verdade, esse era um de seus problemas. Nada lhe acontecia. E por ter uma vida tão cheia de nada, no dia seguinte ele decidiu morrer.
Antes disso precisava escrever uma carta que explicasse a todos o que o fazia dar cabo de si. ‘A todos quem, oras?’ pensou. Não havia ninguém a quem precisasse explicar o seu ato. Ainda assim, por desencargo de consciência, uma explicação seria bem vinda. Como ele sempre achou conversar consigo próprio é coisa de louco, calhou de escrever algo para si para ver se aquilo lhe bastava para dar aquele passo (para frente ou para trás? Àquela altura essa dúvida nem tinha mais importância).
Comprou uma resma de papel mesmo precisando apenas de uma folha. ‘Posso precisar passar a limpo’ pensou. Afinal, a última coisa que queria é que alguém tentasse ler seu último escrito e não conseguisse por estar ilegível ou garranchado. ‘Alguém quem, oras?’ censurou-se.
Caneta e papel em mãos, agora tinha que apenas deixar fluir seu pensamento. Sim, caneta porque para essas situações não se pode deixar como última obra um papel impresso que qualquer um faria até por brincadeira (e, na verdade, acreditava que muitas vezes os pensamentos de suas mãos eram muito mais claros que os seus próprios). Aquelas seriam as últimas palavras traduzidas em desenhos de quem deixava para trás esse tormento chamado vida; estariam todas carregando suas últimas emoções. Gostou de pensar em tormento e por ele começou sua carta.
Porém o tormento não lhe bastou para que se desse cabo. Pensou que muitos sofrem por ai e nem por isso saem fazendo o que iria fazer. Sentia dor da posição em que sentava. Isso a dor dos que vivem neste mundo ingrato. Conflito, dor, insatisfação. Estes eram bons motivos. No entanto, nisso havia um pequeno problema. Não se sentia em conflito com nada. E aquela sua dor estava longe das que as mulheres sentem no parto, então seria pouco nobre achar que ela valeria uma vida.
Mas claro! Como se havia esquecido dela? A solidão lhe era um bom motivo. Não tinha para quem nem com quem viver neste mundo. Isso lhe sairia bem, mas lembrou que no seu egoísmo viver para e com alguém era uma grande bobagem. Bobagem essa só superada pelo que iria fazer se usasse aquilo como motivo.
Pensou em investir mais uma vez na insatisfação que já havia esquecido, mas achou que se já a havia esquecido é porque ela nem valia a pena. Tentou finalmente a simplicidade. A tristeza era o seu maior trunfo e ela se bastava em si. Logo percebeu que tristeza nenhuma se basta em si e que ele estava novamente sem bons motivos.
No fim, lá ia ele pela vigésima ou trigésima folha sem que nenhuma lhe tivesse trazido um motivo convincente. Acabou desistindo até achar um bom motivo. Teve três filhos e escreveu duas autobiografias. Quando se matou, anos mais tarde, estava agarrado a uma crítica literária de sua última autobiografia.
Antes disso precisava escrever uma carta que explicasse a todos o que o fazia dar cabo de si. ‘A todos quem, oras?’ pensou. Não havia ninguém a quem precisasse explicar o seu ato. Ainda assim, por desencargo de consciência, uma explicação seria bem vinda. Como ele sempre achou conversar consigo próprio é coisa de louco, calhou de escrever algo para si para ver se aquilo lhe bastava para dar aquele passo (para frente ou para trás? Àquela altura essa dúvida nem tinha mais importância).
Comprou uma resma de papel mesmo precisando apenas de uma folha. ‘Posso precisar passar a limpo’ pensou. Afinal, a última coisa que queria é que alguém tentasse ler seu último escrito e não conseguisse por estar ilegível ou garranchado. ‘Alguém quem, oras?’ censurou-se.
Caneta e papel em mãos, agora tinha que apenas deixar fluir seu pensamento. Sim, caneta porque para essas situações não se pode deixar como última obra um papel impresso que qualquer um faria até por brincadeira (e, na verdade, acreditava que muitas vezes os pensamentos de suas mãos eram muito mais claros que os seus próprios). Aquelas seriam as últimas palavras traduzidas em desenhos de quem deixava para trás esse tormento chamado vida; estariam todas carregando suas últimas emoções. Gostou de pensar em tormento e por ele começou sua carta.
Porém o tormento não lhe bastou para que se desse cabo. Pensou que muitos sofrem por ai e nem por isso saem fazendo o que iria fazer. Sentia dor da posição em que sentava. Isso a dor dos que vivem neste mundo ingrato. Conflito, dor, insatisfação. Estes eram bons motivos. No entanto, nisso havia um pequeno problema. Não se sentia em conflito com nada. E aquela sua dor estava longe das que as mulheres sentem no parto, então seria pouco nobre achar que ela valeria uma vida.
Mas claro! Como se havia esquecido dela? A solidão lhe era um bom motivo. Não tinha para quem nem com quem viver neste mundo. Isso lhe sairia bem, mas lembrou que no seu egoísmo viver para e com alguém era uma grande bobagem. Bobagem essa só superada pelo que iria fazer se usasse aquilo como motivo.
Pensou em investir mais uma vez na insatisfação que já havia esquecido, mas achou que se já a havia esquecido é porque ela nem valia a pena. Tentou finalmente a simplicidade. A tristeza era o seu maior trunfo e ela se bastava em si. Logo percebeu que tristeza nenhuma se basta em si e que ele estava novamente sem bons motivos.
No fim, lá ia ele pela vigésima ou trigésima folha sem que nenhuma lhe tivesse trazido um motivo convincente. Acabou desistindo até achar um bom motivo. Teve três filhos e escreveu duas autobiografias. Quando se matou, anos mais tarde, estava agarrado a uma crítica literária de sua última autobiografia.
sexta-feira, 26 de setembro de 2008
Direito de resposta
De repente chega o final de semana e você percebe que a criatividade de todo mundo aflorou menos a sua. Todos estão a dizer coisas legais ou pelo menos coisas que foram ou um dia vão ser legais. Eles não precisam dizer de forma legal, é verdade, mas só de falar nessas coisas parecem já vale. Como fazem isso afinal?
De repente chega o final de semana e você percebe que ainda não tem nada para dizer. Simplesmente nada. Mente limpa e clara. Aliás, a cada minuto que passa sem que tenha nada a dizer só confirma algo: você nunca mais vai dizer nada. Isso pode até ser verdade e uma verdade até confortável. Afinal, para que ficar falando por ai coisas legais a todo mundo? Não é melhor simplesmente guardá-las para um dia sem graça ou quando ninguém mais tiver nada a dizer?
De repente chega o final de semana e você percebe que o direito de permanecer calado é pretty cool. Porque, além de se reservar a não dizer nada, você ainda ganha tempo para arranjar o que dizer e da forma certa (se é que existe uma forma certa de organizar palavras. Tudo que é definido por lei me é muito suspeito). Não que você consiga achar algo a dizer nesse tempo. Pelo menos você sente que está tentando mudar em algo ou fazendo algo. Ficar parado não parece da natureza humana (a não ser no funcionalismo público, mas já há relatos de servidores com coração).
De repente chega o final de semana e você a vê. Em algum cantinho sem chamar atenção. Tão sem palavras quanto você. Ou melhor, tão sem palavras quanto você era antes. Porque agora você está em dúvida e a dúvida sempre vem em forma de palavras (e geralmente palavras deslocadas porque não somos ensinados a ter dúvida, mas sim a matá-las). Você duvida de sua incapacidade de falar, duvida de sua mente clara e limpa, duvida até que um dia pensou no direito de permanecer calado como algo pretty cool (agora o cinema mudo não é nada além de brega). Duvida, principalmente, que vá conseguir passar um só dia sem ter algo a falar em sua companhia. Com ela, até o silêncio parece tagarela.
lyrics
De repente chega o final de semana e você percebe que ainda não tem nada para dizer. Simplesmente nada. Mente limpa e clara. Aliás, a cada minuto que passa sem que tenha nada a dizer só confirma algo: você nunca mais vai dizer nada. Isso pode até ser verdade e uma verdade até confortável. Afinal, para que ficar falando por ai coisas legais a todo mundo? Não é melhor simplesmente guardá-las para um dia sem graça ou quando ninguém mais tiver nada a dizer?
De repente chega o final de semana e você percebe que o direito de permanecer calado é pretty cool. Porque, além de se reservar a não dizer nada, você ainda ganha tempo para arranjar o que dizer e da forma certa (se é que existe uma forma certa de organizar palavras. Tudo que é definido por lei me é muito suspeito). Não que você consiga achar algo a dizer nesse tempo. Pelo menos você sente que está tentando mudar em algo ou fazendo algo. Ficar parado não parece da natureza humana (a não ser no funcionalismo público, mas já há relatos de servidores com coração).
De repente chega o final de semana e você a vê. Em algum cantinho sem chamar atenção. Tão sem palavras quanto você. Ou melhor, tão sem palavras quanto você era antes. Porque agora você está em dúvida e a dúvida sempre vem em forma de palavras (e geralmente palavras deslocadas porque não somos ensinados a ter dúvida, mas sim a matá-las). Você duvida de sua incapacidade de falar, duvida de sua mente clara e limpa, duvida até que um dia pensou no direito de permanecer calado como algo pretty cool (agora o cinema mudo não é nada além de brega). Duvida, principalmente, que vá conseguir passar um só dia sem ter algo a falar em sua companhia. Com ela, até o silêncio parece tagarela.
lyrics
sábado, 26 de abril de 2008
Catota
Pré: é um conto que acabei fazendo para não dormir quando estava sem pc e sem vida social. Não esperem nada de bom.
.....
Catota nasceu numa família pobre que morava num bairro pobre. Logo cedo viu que a voda não lhe seria fácil. Seu pai foi preso e sua mãe lhe deu mais sete irmãos. Teve que trabalhar pedindo esmola para sustentar sua família quando sua mãe adoeceu. Ainda assim era obrigado a ir na escola para dormir por algumas horas. Tudo para não perder o benefício do governo. Aos doze, conseguiu um empréstimo de um garoto da ONG de seu bairro. O garoto ONG deu o dinheiro para Catota comprar um caderno de estudos. Catota usou a oportunidade para empreender seu primeiro investimento financeiro: um sacão de pipocas. Pode não ter estudado nem ser inteligente, mas com aquele saco Catota aprendeu um lição ao abrir falência: pipoca não é empreendimento. Pobre Catota, o garoto ONG deu dinheiro para todas as crianças do bairro que compraram pipocas. Pobre Catota, se tivesse comprado um caderno poderia vendê-lo para ajudar a família.
Um dia sua sorte iria mudar. Essa era uma certeza que sua mãe tinha. E não se enganem, a mãe de Catota não era mulher de ter certezas. Ela aprendeu desde cedo que pobre não pode ter certezas. Mesmo assim tinha duas: ela própria não teria futuro e Catota teria algum futuro. A primeira certeza veio quando ela nasceu. A segunda veio quando ela pegou se filho comendo catota para passar a fome. Nenhuma outra criança da favela fazia aquilo. Assim não era difícil perceber que Catota era especial. Também não era difícil perceber como ele ficaria conhecido. Para a mãe de Catota certezas eram coisas simples e perceptíveis logo de cara. Talvez por isso ela não tivesse tantas certezas. Pobre mulher, nunca pensou que o futuro do filho poderia pior que o seu próprio. Pobre mulher, não foi dotada de inteligência, fortuna e sorte.
Na verdade, a mãe de Catota tinha sim alguma sorte. Morreu sem ver a cara de tristeza de seus sete filhos. Mulher de sorte, nem viu o espanto de Catota, que aos dezoito anos se viu órfão, pobre, preto, feio, virgem, fudido e precisando cuidar de sete irmãos. Falando assim, parecem ainda maiores, mas não seriam suficientes para espantar Catota. Afinal todos sempre existiram, a exceção de um, claro. O que preocupava era como levar seus sete irmãos devolta para o barraco. Foi um primo distante, daqueles que de parentesco só restou a pobreza, que levou os irmãos para o cemitério público. Depois ele seguiu estrada para nunca mais dar as caras. Antes de partir fez um gesto de nobreza, provavelmente o único de sua vida, e deu um dinheiro para ajudar nas despesas. Pena que aquele dinheiro nem desse para a passagem de volta. Pobre primo distante, só quis ajudar. Pobre primo distante, mal sabia que Catota lhe seria eternamente grato por um tempo.
A mãe de Catota era mulher alguma religião. Como alguma não é algo definido, nem os espíritos podem dizer para onde ela foi. Uns dizem que ela reincarnou em alguma branca sueca pobre. Outros já dizem que ela virou uma estrela que brilha sobre a favela. Há sempre aqueles que dizem que alma de pobre só sobe aos céus. Mas houve um, só um, que achava que o espírito da mãe de Catota tinha virado uma brisa, daquelas que trazem bons e maus presságios, ou que pelo menos nos dizem para sair de guarda-chuva. Alheio a todo esse debate espectral, Catota decidiu fazer alguma coisa daquele dinheiro. Acabou experimentando sua primeira certeza: não compraria um sacão de pipocas. Foi então que uma brisa soprou e seguiu até a loteria. Essa brisa iniciou uma grande discussão semi-devastadora entre os espíritos que só foi resolvida quando todos concordaram em voltar a discuti-la no próximo congresso dos espíritos de origem/destino indefinidos que acontece em Agosto. Catota desconhecia sinais e muito mais. Ele se achou muito esperto por arriscar toda sua fortuna num só bilhete. Pobre Catota, passou fome por ter gasto aquele dinheiro. Pobre Catota, ganhou e nem sabia o quanto valia doze milhões.
Pode até não parecer, mas doze milhões é realmente muito dinheiro para uma pessoa só. É mais do que alguém que trabalhe a vida inteira vendendo pipocas pode conseguir. A não ser que você seja um rei das vendas de pipoca. Doze milhões parece saldo de balança comercial que se vê na tv; ou então custo de obras desnecessárias do governo. O governo saberia como gastar aquele dinheiro, Catota não. Pensou em comprar pipocas, mas se lembrou da última falência. Pensou em colocar os irmãos para estudar, mas se lembrou do próprio estudo. Pensou em doar para a Igreja, mas se lembrou que ela só pegaria 10%. Catota acabou se lembrando de algo que deveria ter feito no passado quando teve dinheiro. Gastou cada centavo do que tinha em cadernos. Pobre Catota, mal sabia o que estava fazendo. Pobre Catota, não tinha noção do quanto valia doze milhões nem da quantidade que seria isso em cadernos.
Sem ter idéia do que tinha feito, Catota começou a vender cadernos. Os primeiros compradores foram os garotos das ONGs; aparentemente eles realmente usavam cadernos, Catota nem imaginava como. Os segundos compradores foram donos de papelarias; esses vieram reclamando do preço, da qualidade, do governo, da concorrência e da safra de trigo. O terceiro comprador foi o governo, que chegou acusando Catota de monopólio, dumping e formação de quadrilha. Os cadernos foram confiscados para o bem público e Catota foi indiciado criminalmente. Pobre Catota, perdeu tudo antes de ter noção de quanto tinha. Pobre Catota, experimentou sua segunda certeza: nunca seguir conselhos de garotos de ONGs.
.....
Catota nasceu numa família pobre que morava num bairro pobre. Logo cedo viu que a voda não lhe seria fácil. Seu pai foi preso e sua mãe lhe deu mais sete irmãos. Teve que trabalhar pedindo esmola para sustentar sua família quando sua mãe adoeceu. Ainda assim era obrigado a ir na escola para dormir por algumas horas. Tudo para não perder o benefício do governo. Aos doze, conseguiu um empréstimo de um garoto da ONG de seu bairro. O garoto ONG deu o dinheiro para Catota comprar um caderno de estudos. Catota usou a oportunidade para empreender seu primeiro investimento financeiro: um sacão de pipocas. Pode não ter estudado nem ser inteligente, mas com aquele saco Catota aprendeu um lição ao abrir falência: pipoca não é empreendimento. Pobre Catota, o garoto ONG deu dinheiro para todas as crianças do bairro que compraram pipocas. Pobre Catota, se tivesse comprado um caderno poderia vendê-lo para ajudar a família.
Um dia sua sorte iria mudar. Essa era uma certeza que sua mãe tinha. E não se enganem, a mãe de Catota não era mulher de ter certezas. Ela aprendeu desde cedo que pobre não pode ter certezas. Mesmo assim tinha duas: ela própria não teria futuro e Catota teria algum futuro. A primeira certeza veio quando ela nasceu. A segunda veio quando ela pegou se filho comendo catota para passar a fome. Nenhuma outra criança da favela fazia aquilo. Assim não era difícil perceber que Catota era especial. Também não era difícil perceber como ele ficaria conhecido. Para a mãe de Catota certezas eram coisas simples e perceptíveis logo de cara. Talvez por isso ela não tivesse tantas certezas. Pobre mulher, nunca pensou que o futuro do filho poderia pior que o seu próprio. Pobre mulher, não foi dotada de inteligência, fortuna e sorte.
Na verdade, a mãe de Catota tinha sim alguma sorte. Morreu sem ver a cara de tristeza de seus sete filhos. Mulher de sorte, nem viu o espanto de Catota, que aos dezoito anos se viu órfão, pobre, preto, feio, virgem, fudido e precisando cuidar de sete irmãos. Falando assim, parecem ainda maiores, mas não seriam suficientes para espantar Catota. Afinal todos sempre existiram, a exceção de um, claro. O que preocupava era como levar seus sete irmãos devolta para o barraco. Foi um primo distante, daqueles que de parentesco só restou a pobreza, que levou os irmãos para o cemitério público. Depois ele seguiu estrada para nunca mais dar as caras. Antes de partir fez um gesto de nobreza, provavelmente o único de sua vida, e deu um dinheiro para ajudar nas despesas. Pena que aquele dinheiro nem desse para a passagem de volta. Pobre primo distante, só quis ajudar. Pobre primo distante, mal sabia que Catota lhe seria eternamente grato por um tempo.
A mãe de Catota era mulher alguma religião. Como alguma não é algo definido, nem os espíritos podem dizer para onde ela foi. Uns dizem que ela reincarnou em alguma branca sueca pobre. Outros já dizem que ela virou uma estrela que brilha sobre a favela. Há sempre aqueles que dizem que alma de pobre só sobe aos céus. Mas houve um, só um, que achava que o espírito da mãe de Catota tinha virado uma brisa, daquelas que trazem bons e maus presságios, ou que pelo menos nos dizem para sair de guarda-chuva. Alheio a todo esse debate espectral, Catota decidiu fazer alguma coisa daquele dinheiro. Acabou experimentando sua primeira certeza: não compraria um sacão de pipocas. Foi então que uma brisa soprou e seguiu até a loteria. Essa brisa iniciou uma grande discussão semi-devastadora entre os espíritos que só foi resolvida quando todos concordaram em voltar a discuti-la no próximo congresso dos espíritos de origem/destino indefinidos que acontece em Agosto. Catota desconhecia sinais e muito mais. Ele se achou muito esperto por arriscar toda sua fortuna num só bilhete. Pobre Catota, passou fome por ter gasto aquele dinheiro. Pobre Catota, ganhou e nem sabia o quanto valia doze milhões.
Pode até não parecer, mas doze milhões é realmente muito dinheiro para uma pessoa só. É mais do que alguém que trabalhe a vida inteira vendendo pipocas pode conseguir. A não ser que você seja um rei das vendas de pipoca. Doze milhões parece saldo de balança comercial que se vê na tv; ou então custo de obras desnecessárias do governo. O governo saberia como gastar aquele dinheiro, Catota não. Pensou em comprar pipocas, mas se lembrou da última falência. Pensou em colocar os irmãos para estudar, mas se lembrou do próprio estudo. Pensou em doar para a Igreja, mas se lembrou que ela só pegaria 10%. Catota acabou se lembrando de algo que deveria ter feito no passado quando teve dinheiro. Gastou cada centavo do que tinha em cadernos. Pobre Catota, mal sabia o que estava fazendo. Pobre Catota, não tinha noção do quanto valia doze milhões nem da quantidade que seria isso em cadernos.
Sem ter idéia do que tinha feito, Catota começou a vender cadernos. Os primeiros compradores foram os garotos das ONGs; aparentemente eles realmente usavam cadernos, Catota nem imaginava como. Os segundos compradores foram donos de papelarias; esses vieram reclamando do preço, da qualidade, do governo, da concorrência e da safra de trigo. O terceiro comprador foi o governo, que chegou acusando Catota de monopólio, dumping e formação de quadrilha. Os cadernos foram confiscados para o bem público e Catota foi indiciado criminalmente. Pobre Catota, perdeu tudo antes de ter noção de quanto tinha. Pobre Catota, experimentou sua segunda certeza: nunca seguir conselhos de garotos de ONGs.
segunda-feira, 30 de abril de 2007
Esse é ruim mesmo, mas nem me importo
Chove lá fora. Ainda bem. Carro fechado. Desembaçador ligado. Um abafado infernal. Tão abafado e tão infernal quanto as buzinas lá fora. Por que todos eles se incomodam tanto comigo? Só vou roubar-lhes um minuto de suas vidas no máximo. E nesse mesmo máximo, posso estar salvando a vida de alguns e matando outros. Tudo é um monte de possibilidades mesmo.
Por exemplo: qual era a minha chance de passar no semáforo amarelo? Zero. Mesmo assim passei porque não dava para parar. O que é uma mentira, pois dava, minha pressa me levou a me arriscar. Agora me arrisco a sofrer uma multa e a sujar o nome de meus ancestrais. "Mamãe vai bem?". "Vovozinha criou, né?", devem estar gritando lá fora. Já conheço os xingamentos. São normalmente os que faço quando estou do outro lado.Por que estava com pressa mesmo?h sim. Pegar os meninos na escolar e levar para o médico. Eu deveria ter pensado num motivo mais nobre para sofrer uma multa. Tipo, salvar o mundo ou simplesmente minha avó com parada cardíaca. Correr da polícia era uma boa também, apesar de não ser nobre.Nobreza é uma coisa que está em falta no trânsito. Tenho certeza que se estivesse numa Inglaterra, o máximo que me aconteceria seria a aproximação de um senhor de postura perfeita, numa farda azul quase negro e bigodes volumosos dizendo: "O senhor está cometendo uma infração e atrapalhando a vida dos outros usuários do trânsito. Por favor, seja um gentleman e não repita mais esse ato terrível. Aqui está a sua multa, obrigado".Mas não. Estou no Brasil. Já vejo uma figura com bucho de chopp, farda cor de barro seco e bigode ralo e desigual. Já vou deixando a carteira no banco do passageiro. Logo terei que consultá-la mesmo. É tudo questão de costumes e práticas. Mas que diabos?! Essas paradas forçadas levam a gente a pensar em cada besteira!E o pior é que ainda vou me atrasar.ps: outro teste do Office.
sábado, 18 de novembro de 2006
Conto meu!
Acendo um cigarro. Droga, lembro que não fumo. Apago o cigarro. Tenho uma leve impressão de que esse não é um bom começo para qualquer história, mas penso que é minha história e ninguém pode dizer se é bom ou ruim, pois são apenas fatos. O que importa é que eu estava lá, sem cigarro, a espera de algo muito importante que poderia mudar toda minha vida. Foi quando eu finalmente a vi...
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