sábado, 20 de dezembro de 2008

Coraline

Confesso que a proximidade do filme e as promoções de fim de ano me colocaram este livro na mão. Aliás, as promoções só me atrapalharam, porque comprei tão na pressa que nem vi que estava em português. Mas ok, o Neil Gaiman merece.

Que dizer sobre Coraline? É uma menina pequena e aventureira. Gosta de explorar e tem pais omissos. De repente (como muita coisa nas histórias mais inglesas de Gaiman), ela descobre que a casa velha onde morava escondia uma passagem para um outro mundo. Noto também que ele adora essas coisas velhas espalhadas por ai que ninguém mais se lembra ao certo do que é. Não sabemos o que é isso porque a coisa mais antiga que conseguimos olhar em nossas terras não tem mais de 500 anos.

Poisé, esse mundo é antigo, fantástico e perigoso. É lá que Coraline vai aprender algumas lições e vai encontrar sua força. Poisé, há uma moral da história! Uma aventura com uma pequena menina inglesa tem tudo para ser legal, não é mesmo? Talvez não a da Madeleine, mas ai já é outra história.

Enfim, ótimo livro para se passar uma tarde de Natal. E o filme parece que também promete bastante!

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

O Suicida

E no dia seguinte ele decidiu morrer. Não que no dia anterior tivesse acontecido qualquer coisa que o fizesse ter vontade de terminar aquela breve aventura chamada vida. Na verdade, esse era um de seus problemas. Nada lhe acontecia. E por ter uma vida tão cheia de nada, no dia seguinte ele decidiu morrer.

Antes disso precisava escrever uma carta que explicasse a todos o que o fazia dar cabo de si. ‘A todos quem, oras?’ pensou. Não havia ninguém a quem precisasse explicar o seu ato. Ainda assim, por desencargo de consciência, uma explicação seria bem vinda. Como ele sempre achou conversar consigo próprio é coisa de louco, calhou de escrever algo para si para ver se aquilo lhe bastava para dar aquele passo (para frente ou para trás? Àquela altura essa dúvida nem tinha mais importância).

Comprou uma resma de papel mesmo precisando apenas de uma folha. ‘Posso precisar passar a limpo’ pensou. Afinal, a última coisa que queria é que alguém tentasse ler seu último escrito e não conseguisse por estar ilegível ou garranchado. ‘Alguém quem, oras?’ censurou-se.

Caneta e papel em mãos, agora tinha que apenas deixar fluir seu pensamento. Sim, caneta porque para essas situações não se pode deixar como última obra um papel impresso que qualquer um faria até por brincadeira (e, na verdade, acreditava que muitas vezes os pensamentos de suas mãos eram muito mais claros que os seus próprios). Aquelas seriam as últimas palavras traduzidas em desenhos de quem deixava para trás esse tormento chamado vida; estariam todas carregando suas últimas emoções. Gostou de pensar em tormento e por ele começou sua carta.

Porém o tormento não lhe bastou para que se desse cabo. Pensou que muitos sofrem por ai e nem por isso saem fazendo o que iria fazer. Sentia dor da posição em que sentava. Isso a dor dos que vivem neste mundo ingrato. Conflito, dor, insatisfação. Estes eram bons motivos. No entanto, nisso havia um pequeno problema. Não se sentia em conflito com nada. E aquela sua dor estava longe das que as mulheres sentem no parto, então seria pouco nobre achar que ela valeria uma vida.

Mas claro! Como se havia esquecido dela? A solidão lhe era um bom motivo. Não tinha para quem nem com quem viver neste mundo. Isso lhe sairia bem, mas lembrou que no seu egoísmo viver para e com alguém era uma grande bobagem. Bobagem essa só superada pelo que iria fazer se usasse aquilo como motivo.

Pensou em investir mais uma vez na insatisfação que já havia esquecido, mas achou que se já a havia esquecido é porque ela nem valia a pena. Tentou finalmente a simplicidade. A tristeza era o seu maior trunfo e ela se bastava em si. Logo percebeu que tristeza nenhuma se basta em si e que ele estava novamente sem bons motivos.

No fim, lá ia ele pela vigésima ou trigésima folha sem que nenhuma lhe tivesse trazido um motivo convincente. Acabou desistindo até achar um bom motivo. Teve três filhos e escreveu duas autobiografias. Quando se matou, anos mais tarde, estava agarrado a uma crítica literária de sua última autobiografia.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

The Wizard of Oz

Quanto chão precisamos andar para conseguir aquilo que buscamos? Nos tempos do Google essa pergunta perdeu muito de sua força. Mesmo assim ainda podemos tentar pensar em quantas paisagens alguém que procure um coração, um cérebro ou coragem vai precisar percorrer. E pior, onde diabos fica o Kansas? Dá para chegar lá de Ônibus? Google Maps?

The Wizard of Oz conta a história de como Dorothy foi levada por um furacão até a terra encantada de Oz. Lá ela vai em busca de uma forma de voltar para casa. Pelo caminho Dorothy encontra três companheiros, um lenhador de lata, um espantalho e um leão covarde, cada um em busca do que seria o mais importante para si. E a partir daí o grupo segue em aventuras que quase todos já sabemos e/ou já vimos nos cinemas ou adaptações.

O livro de L Frank Baum não tem nada de surpreendente (a não ser o autor que ninguém conhece) porque todo mundo já sabe o que vai se passar. Mas nada o impede de ser um belo conto de fadas com tudo o que as crianças gostam (ou pelo menos deveriam gostar se fossem saudáveis). Aliás, a proposta do autor era exatamente essa em sua introdução.

Enfim, mesmo sabendo de tudo que virá, realmente vale a pena ver como a pequena Dorothy e seus companheiros exploram a fantástica terra de Oz (o Grande e Terrível) e nela encontram a moral da história.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Looking For Alaska

Sabe aquelas comédias românticas que você não consegue deixar de ver apesar de já saber de tudo que vai acontecer e de já ter ouvido seu primo de oito anos contar aquelas piadas? Não é nada parecido com isso. Ok, esta obra de John Green pode ser tão despretensiosa quanto qualquer comédia romântica, mas certamente é mais magnética que uma. Magnética, acho que essa é a palavra que melhor define esta Looking for Alaska. Você simplesmente começa a encontrar muita dificuldade em parar mesmo sabendo a cada linha que não está lendo nada genial.

Afinal que mal há em ler algo não genial, mas completamente legal? Nele encontramos o perfil do adolescente nerd / loser e como essas figuras tem seus problemas e tudo mais. Problemas que um dia já foram nossos (ou ainda são). De certa forma, podemos dizer que os adolescentes são meio piegas mesmo. Precisam crescer e muitas vezes nem sabemos quando isso de fato ocorre. Green trabalha um desses momentos.

Ele lembra um daqueles paradidáticos nisso, mas não é como os paradidáticos nacionais cheios de lições de moral e frescuras com tempero Malhação. Os personagens estão longe do que se chama de padrão em suas peculiaridades. No entanto, o "sofrimento" é o que os une. Coisas de adolescente. Ah, o livro também tem muito de cultura nerd, mas isso nem é opressivo.

Enfim, é um ótimo e rápido livro para se ler sem medo de ser feliz. Diversão certa.

Um pedaço que o Garoto Singelo roubou aqui.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Auto da Compadecida

Realmente não há muito a se dizer dessa peça. A adaptação para as telinhas por Guel Arraes foi muito fiel ao livro. Apenas deram jeito em algumas sutilezas. Por exemplo, eliminaram três personagens que existiam na peça: o frade, o sacristão e um demônio. De quebra, colocaram um valente só para ilustrar a falsidade da mulher do padeiro.

Também foi muito sutil o caso da bexiga com sangue. Na peça, o Grilo faz aquilo para se vingar da patroa e é isso que vai condená-lo no julgamento. Nas telinhas tiraram essa parte por censura e a usaram no caso do Grilo disfarçado de Severino de Aracaju e Chicó ia ser o valente a sangrá-lo.

Aliás, a parte onde mais sentimos as sutilezas é no julgamento. É lá onde todas as coisas que foram mudadas anteriormente acabam mudando de fato a peça. Na peça, todos são bem justificados e realmente ficam a merecer seu lugar no purgatório. Na adaptação, eles ficam mais por causa da misericórdia divina do que por qualquer outra coisa.

Um grupo de personagens que mal aparece aqui, mas é citado no filme é o do Marjor Antônio Moraes, sua filha, o valente (já citado) e o policial. Não sei ao certo, mas acho que eles contam tentam contar a história do Santo e a Porca, também de Ariano. Vai ver que é por isso que fica tudo meio embolado no filme.

Ah, na peça há também um narrador. É um palhaço que vem e volta. Praticamente um João Grilo II, mas que sabe de tudo que se passa. Sua função é mais animar e dar tempo para as mudanças de cenário, mas mesmo assim gostei dele.

Nah, queria só falar mal de como todo mundo é martirizado na adaptação. O julgamento é a prova disso. Na peça, todos são justificados por um pensamento racional (pecaram, mas também fizeram boas ações, então vão para o purgatório). Os cangaceiros vão para o céu porque são coitadinhos na adaptação. Na peça vão porque são um instrumento de cólera divina. E, por fim, o João dá uma de piegas na adaptação e se diz condenado indo em direção ao inferno. Ora, na peça o amarelo nunca desistiu de salvar o seu couro, por que iria desistir agora que tinha a melhor das advogadas?

Enfim, é legal ler a peça porque é bem rápido; basta uma tarde. Mas é meio impossível você não comparar com o filme e fica meio que enfadonho ler aquilo que você já viu. Mesmo assim ainda vale a pena.

ps: e também li numa edição belíssima da Agir. É um dos poucos livros da biblioteca que deu vontade de roubar porque é bonito, mas sou um bom rapaz e não faria isso.

sábado, 22 de novembro de 2008

A Verdade das Mentiras

Mais um livro que vai para minha sessão de 'livros escolhidos ao acaso' na biblioteca. Parece que sou realmente bom nisso, porque este também me surpreendeu. Quando o peguei, achei que era somente um livro de um escritor peruano de renome analisando os seus 35 romances prediletos (bem naquele nível de comentário: "adorei o suor escorrendo naquele close na bunda cabeluda do turco). Apesar do nome brega, a proposta de Mario Vargas Llosa é bem clara: analisar mesmo 35 romances do século XX que trazem consigo o melhor do que pode haver num romance, que é a arte de convencer e de fazer o leitor se sentir bem. Basicamente, ele propõe que um romance deve mentir para nos atrair e que só assim podemos ficar felizes.

É bem legal. Pelo menos para quem já leu aqueles livros (alguns, ok), é interessante para ver um ponto de vista diferente. É a visão de quem estudou o livro e quis por meio daquele livro estudar o romance do século XX de forma geral e que ao mesmo tempo dá sua opinião casual. No começo parece meio improvável que ele vá conseguir cumprir a promessa do título, mas não é que ele a leva até o fim. Além disso, ficamos por dentro de 35 livros que realmente merecem alguma atenção (foi lá que fiquei sabendo d'O Estrangeiro de Camus).

Muito bom livro para quem gosta de ler sobre literatura (e que deu o sopro vital para que meu ante-projeto finalmente fosse para o papel). Enfim, leiam!

terça-feira, 18 de novembro de 2008

O Estrangeiro

Soube deste livro por causa de um livro maravilhoso de Mario Vargas Llosa que estou lendo. Confesso que não me interessou muito saber da história do monsieur Meursault pelo que foi dito por Llosa. Basicamente, ele é um homem indiferente a tudo e sem aspirações nenhuma que um dia acabou fazendo algo que deu uma certa guinada em sua vida (sei que isso não faz o menor sentido, mas se eu disser mais vou acabar caindo num spoiler). Lembrei do livro quando fui obrigado a ficar uma hora solitário na Livraria Cultura. Que fazer? Fui dar uma olhadela.

Pior que nem esperava nada de um plot que não pode ser explicado sem spoilers, mas acabei lendo um terço do livreto naquela hora. E, wow, praticamente não vi o escritor d'A Peste naquilo. Encontramos nele o monsieur Meursault que apesar de ser incapaz de sentir qualquer emoção (um Dexter francês) ainda consegue atrair nossa atenção. Ele não parece de todo errado em sua indiferença em relação ao mundo. Só não tem crenças e nem muita vontade de conviver com todas aquelas pessoas que têm aquela necessidade absurda de mostrar que é um ser humano ao dar espaço às suas emoções (e, sim, demonstrar obrigatoriamente que se é um ser sensível aos outros pode ser um saco).

Uma vida que é uma droga não precisa de espaços para emoções. O mesmo vale para um vida completamente simples e padrão (pois se espera muito mais atos que sentimentos dessas pessoas). O narrador personagem poderia ter vivido ainda alguns bons anos se acaso não tivesse calhado de matar um árabe por causa do sol. Yup, ótima justificativa para se matar uma pessoa. Noto que acabei soltando um detalhe que divide a história, mas, sinceramente, isso não importa. Até a contracapa do livro diz isso estragando a surpresa.

Surpresa mesmo é o seu julgamento. Por que se julga um assassino? Imagino que seja para fazê-lo pagar de alguma forma por um crime que ele cometeu. Mas ali tínhamos um réu confesso e que apenas aguardava a escolha de seu destino. Sim, ainda indiferente. Não sei ao certo porque, mas no fim acabei lembrando de Julien Sorel de Stendhal. Ia ser curioso imaginar os dois frente a frente no último momento. Que diálogo egoísta os dois seriam capaz de compor juntos, hein?

Mas após estragar todas as surpresas o que ainda se pode dizer do livro (quase um conto)? É muito bom. Tipo, bom mesmo. Mesmo no sentido de que mesmo sabendo da história podemos pegá-lo e lê-lo de um só fôlego. Ao fim iremos nos julgar na figura de Meursault e também julgaremos seus inquisidores. É complicado não fazer isso. Principalmente talvez esse seja todo o ponto da história e que é quando separamos Meursault do resto que (obviamente) nota-se o porquê dele ser estrangeiro.

Enfim, vale a pena ser lido e, de certo modo, mostra que Albert Camus talvez tenha algo muito bom a dizer em alguns momentos. E é melhor terminar antes que eu acabe escrevendo um post maior que o livro.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Time stands still at the Iron Hill

Acho que esse é o oitavo post que começo e desisto no meio. Se eu não desistir isso deve significar alguma coisa (vai lá saber o que). Hoje eu realmente parei para assistir televisão e de repente fui atingido por um pensamento bombástico. Havia muito tempo que eu não assistia televisão. Muito tempo mesmo. Eu praticamente tinha me transformado num daqueles experimentos fracassados de pessoas metidas que dizem que não assistiam televisão e que viveriam sem ela. De repente comecei realmente a viver sem ela quando comecei a me isolar completamente do mundo em um pico isolado e infernal em minha terra (mas realmente sinto muita falta de ver os gols do campeonato sem precisar esperar uma longa barrinha encher [e sem precisar sonhar em ver o Neto de surpresa enquanto estiver trocando de canal {o que me leva a pensar se realmente a Band precisa daqueles comentaristas torcedores paulistas? Eles realmente atraem o ódio de todo o resto do Brasil que não torce pro Corinthians}])

Enfim, bastou ver o William Bonner envelhecido para notar quanto tempo fiquei sem ver Globo. Só de vê-lo me senti envelhecido e finalmente descobri um bom motivo para não assistir nada Globo (ou qualquer outra emissora com programas estáveis [a não ser o SBT porque o Sílvio Santos nunca envelheceu para não constrager nenhum telespectador]). Pior é que realmente fiquei constragido quando falaram do Obama lá. Preferia que simplesmente esquecessem toda essa história de primeiro negro e tudo mais; já me basta o stumble enchendo o saco com isso (coisa parecido só vi na eleição de Lula [sim, sou velho o suficiente para lembrar dela]). Não importa, Bonner roubou minha atenção com seus comentários dignos de dono de barraquinha de cachorro quente de jogo de futebol. Fiquei apenas pensando 'will he ever retire?'. Bem, acho que não (jornalista bom é jornalista morto! oh yeah!).

ps: fico pensando se já escrevi algo com tanta digressão e falta de sentido assim?

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Neverwhere

É só pegar o livro e ler na capa mais uma comparação com Alice no País das Maravilhas. Isso significa muita coisa. Assim já sabemos que vai acontecer uma viagem e uma pessoa vai sair de seu dia-a-dia normal. Wow, disse tudo hein. O legal é que essa classificação envolve histórias como a de "Ferris Bueller's Day Off" (Curtindo a vida adoidado, se não estiver errado) e Senhor dos Anéis. Alice é um ótimo livro, mas essa coisa de tomá-lo como medida de todas as coisas é meio, hã, errada.

Neverwhere conta a história de Richard Mayhew e como ele fez uma viagem fantástica a uma Londres mágica que existe embaixo da verdadeira. Por ajudar uma jovem que estava sendo perseguida, Richard passa a ser parte da Londres Inferior e começa a ser completamente ignorado pelos londrinos superiores. É enfrentando e andando por lugares esquecidos (além de tropeçando em alguma piadas londrinas que para mim não significaram nada) que Richard faz o seu caminho e sua história.

Ok, agora com esse resumo, volta a dúvida: o que diabos isso tem haver com a Alice? Chuto que seja a equação: "pessoa => viagem maluca". Nem preciso dizer que isso não é uma equação válida.

Neverwhere, apesar de fantástico, se passa nos esgotos e subterrâneos de Londres. Locais que foram esquecidos são seus cenários. Lá embaixo uma civilização inteira de pessoas perigosas e coisas irreais têm lugar. Mas é exatamente isso que difere de Alice. As coisas são fantásticas, mas lógicas. Elas foram se acumulando lá embaixo, mas foram ocupadas por habitantes que estabeleceram domínios. Tudo é meio magicamente óbvio. Earl's Court deixa de ser um lugar para ser uma corte. A Nightbridge faz jus ao nome e por ai vai. É uma lógica bem legal (apesar de fazer muito mais sentido pra quem esteve em Londres e é por isso que tem um mapa da cidade no livro).

Agora, depois de protestar, posso confessar que desde que li Pedra do Reino e assisti aquele seminário que eu estava cabreiro com Neil Gaiman. Eu achava ele o máximo, mas depois desses eventos pensei: "o que há de bom nele?" Ai decidi ler Neverwhere para procurar descobrir se ele é bom ou é só mais um best seller vazio. Wow, ainda bem que me vi errado na desconfiança.

Gaiman é realmente bom. Pode não ser um mestre na forma e estar mais próximo de King que de um Saramago. Mas ele é genial nas sacadas. A criatividade fantásticas para trazer histórias bonitinhas cheias de um mistério, uma sabedoria esquecida e aventura parece realmente ter nascido com o escritor Gaiman (e aqui gostaria de lembrar que o roteirista é diferente. Nos quadrinhos ele faz algo mais próximo ao terror e ao gótico. Mas não tão bem. Ele beira um senso comum [ou então foi responsável por estabelece-lo]).

Enfim, acho que ele traduz bem a fantasia moderna e Neverwhere é um excelente exemplo. Não importa que seja previsível, o legal é seguir os passos de Richard naquele universo fantástico. E lembrando de uma frase de ETA Hoffman que o Gussie me mostrou, encerro: "people will very soon cease to believe in fairies once they begin to walk among them".

domingo, 26 de outubro de 2008

Romance d’A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta

Esse eu posso chamar de tijolo sem medo de ser feliz. Também posso a recomendar a qualquer pessoa sem nenhum medo de ser feliz. Coincidências? Mas isso nem importa; o que vale é que eis aqui uma obra que posso dizer "wow" de boca cheia. Uma obra com uma carinha de América Latina. Será que deveria dizer sertaneja? Não creio. Assim estaria deixando Ariano Suassuna no mesmo patamar que os 99% dos autores chatos e ruins que povoam minha terra e tentam nos sufocar com um regionalismo bobo do tipo ‘o que é daqui é melhor que o seu, lero lero’.

Por que Ariano sai desse povão? Bem, primeiro temos aqui uma obra com alguma preocupação estética (sim, as pessoas na minha terra acham que reler significa ‘deixar de fazer uma obra pura e sua’. Eu prefiro coisas boas a coisas puras). A Pedra do Reino conta a história de Dom Pedro Dinis Ferreira-Quaderna, o Decifrador. Na verdade, ele é um cantador e burocrata dono de bordel sem grandes perspectivas, se olharmos de fora. Para si ele é o quinto Rei da Pedra do Reino, o verdadeiro Império do Brasil. Dom Quixote? Talvez, mas o cavaleiro da triste figura busca coisas diferentes do rei Dom Pedro IV.

Dom Quixote poderia ter sido cavaleiro dos que desejava ser se tivesse nascido umas boas centenas de anos antes. Já o Quaderna estava impressionado com a história de seus ascendentes que 100 anos antes haviam formado o verdadeiro Império do Brasil na Pedra do Reino. O antigo império havia lavado com sangue duas místicas pedras que eram o castelo do Reino, mas fora derrotado em pouco tempo e sua história esquecida.

Quaderna, assim como Dom Quixote, quer reviver esse tempo e os privilégios que sua família possuiu. Mas não nasceu para soldado e sua coragem deixava muito a desejar. É quando durante uma conversa com seus tutores, amigos e parasitas, Samuel e Clemente, ele descobre que há uma forma de reaver a glória perdida. Ele e só ele poderia ser o Gênio Máximo da Humanidade e escrever a Obra da Raça. E não é que o desgraçado consegue!

Sua obra se propõe a contar uma história de aventura, amor, sangue, vingança, fantasia, religião, mistério e glória. Nisso o Quaderna opta por contar sua própria história, começando com o que o leva a estar ali preso em 1938. É engraçado como muita realidade se mistura na ficção aqui. Tanto para o leitor quanto para Dom Dinis. Samuel, integralista (ou armorial, embora segundo o próprio Ariano isso seja questionável), e Clemente, comunista, ajudam muito nessa confusão de datas, citações e eventos semi-históricos que mostram uma realidade sertaneja sem aquelas perebas, fomes e mortes. Aqui tudo precisa brilhar.

Encontramos nele uma obra sertaneja e universal. Como me disseram lá no seminário de literatura, esta seria a obra máxima do barroco brasileiro, mas cá tenho minhas dúvidas sobre isso. Só sei que é o melhor livro escrito em português que já li. Além disso, só por curiosidade, Ariano Suassuna é realmente muito gente boa e um moooonstro de formação clássica. Penso que sua literatura merece mais reconhecimento que suas interpretações globais. Enfim, Tiro meu chapéu.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

De quando eu fui num seminário Letras

Holy crap, estive mesmo em um! Eles iam falar sobre literatura clássica e o Gussie me convenceu a dar uma olhada. Aparentemente ia ser mui bom, apesar de eu ser obrigado a atravessar duas cidades para chegar na universidade (e todos sabem que o tempo que você fica na universidade é inversamente proporcional à vontade de ir lá [oh, esqueci que ainda tem gente que quer entrar. É bein legaulz, gentix. Podjem ir lááá!). Enfim, acabei indo esperando encontrar alunos de Letras falando besteira (o que de fato havia) e algum professor com três idéias ruins e uma boa pelo motivo errado.

Mas não é que havia professores com boas idéias (ponto). Incrivelmente também havia alunos de Letras falando coisas legais! Mais incrivelmente ainda aparece Ariano Suassuna de repente e me surpreende mostrando ser um monstro no tema!

Emoções demais para um só dia e olhe que ainda vem mais (não é todo dia que tenho meus preconceitos abalados, infelizmente). Ai ai, de repente a universidade apronta poucas e boas para a melhor (ok, ainda assim é melhor esperar até o final antes de dizer qualquer coisa, afinal universidade pública nunca se sabe...).

Continua no próximo capítulo (se eu sobreviver).

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

As Mil e Uma Noites... mentira!

Ps: (agora alguém deve se perguntar porque diabos há um ps na frente do texto e na frente do ps há um comentário nada relacionado só para perder o tempo alheio e que na realidade não há nenhum ps a ser dito [wow, três ps's na mesmo frase!]. Bem, só deu vontade de fazer, perdoem meus caprichos).

Esse texto ia ser sobre eleições e acabou sendo. Falar tudo o que já foi dito por ai. Que votar em branco ou anular é que é a vibe do momento e que se ganhou alguém na sua cidade azar o seu. Também ia falar coisas engraçadinhas como dizer que em minha cidade disputaram uma das vagas na nossa querida câmara omissa Reginaldo Rossi, o rei do brega nordestino, Odete, a maior cafetina de pernambuco, e He-Man, para combater o atual prefeito que era um fóssil vivo (possivelmente eu poderia dizer que ele estudou na mesma escolinha que Dercy só para me sentir cool e mais novo). No fim, as eleições municipais são uma experiência frustante em nível menor.

Ai veio a lembrança do terceiro volume das Mil e Uma Noites (aquela edição linda da ed. Globo que custou a minha vida). Num mundo fantástico de vastos territórios selvagens onde só se encontra areia e mar, existem cidades. É interessante ver que nas cidades o que manda é o gosto do povo e um pouco da sorte de 'estar no lugar certo e na hora certa'. Algumas histórias trazem reis malvadões e corruptos que são substituídos por estrangeiros de bom coração, índole e origem (lembrando que é tudo obra do divino nesses casos embora seja o povo que dê um belíssimo pé na bunda nos reis). Enfim pressupõe-se que você tenha que ser justo e fiel (e muitas vezes simplesmente não atuante) para ser um bom rei, caso contrário a porta da rua será a serventia da cidade.

Sempre penso que seria tão mais legal se as coisas ainda fossem obra do divino. Mas lembro que não se pode discordar (a não ser com dez milhões de assinaturas numa petição online) e ainda somos obrigados a entrar numa festa democrática do direito obrigatório. Um rei e um vizir como primeiro ministro parece uma coisa tão mais lógica. Se eles forem corruptos, ai Deus castiga. Infelizmente, como não funciona na prática, temos prefeitos (mas se funcionasse, quantos prefeitos sobrariam no Brasil?).

O acaso sempre traz coisas boas apesar das adversidades. Na história de Simbad, o marujo, (que na verdade é um mercador marítimo) temos uma demonstração disso. Todas as viagens de Simbad são fantásticas e quase levam o mercador à morte (aparentemente quase morrer é fantástico). Mas o acaso sempre o salva e presenteia-lhe com riquezas. Por isso quando envelheceu ele bebe e come de tudo aquilo que conquistou em vida com sua família e prova a um outro Simbad, o estivador, que ele sofreu para estar lá e merecer o que conquistou.

Será que é por isso que no Brasil votamos em toda sorte de candidatos ruins para que no fim de toda história sejamos recompesados com algo bom? Ou é só para dizermos que sofremos e merecemos o que temos? Difícil, até lá vamos tomando remédio pra curar a ressaca dos boca-livres eleitorais.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Direito de resposta

De repente chega o final de semana e você percebe que a criatividade de todo mundo aflorou menos a sua. Todos estão a dizer coisas legais ou pelo menos coisas que foram ou um dia vão ser legais. Eles não precisam dizer de forma legal, é verdade, mas só de falar nessas coisas parecem já vale. Como fazem isso afinal?

De repente chega o final de semana e você percebe que ainda não tem nada para dizer. Simplesmente nada. Mente limpa e clara. Aliás, a cada minuto que passa sem que tenha nada a dizer só confirma algo: você nunca mais vai dizer nada. Isso pode até ser verdade e uma verdade até confortável. Afinal, para que ficar falando por ai coisas legais a todo mundo? Não é melhor simplesmente guardá-las para um dia sem graça ou quando ninguém mais tiver nada a dizer?

De repente chega o final de semana e você percebe que o direito de permanecer calado é pretty cool. Porque, além de se reservar a não dizer nada, você ainda ganha tempo para arranjar o que dizer e da forma certa (se é que existe uma forma certa de organizar palavras. Tudo que é definido por lei me é muito suspeito). Não que você consiga achar algo a dizer nesse tempo. Pelo menos você sente que está tentando mudar em algo ou fazendo algo. Ficar parado não parece da natureza humana (a não ser no funcionalismo público, mas já há relatos de servidores com coração).

De repente chega o final de semana e você a vê. Em algum cantinho sem chamar atenção. Tão sem palavras quanto você. Ou melhor, tão sem palavras quanto você era antes. Porque agora você está em dúvida e a dúvida sempre vem em forma de palavras (e geralmente palavras deslocadas porque não somos ensinados a ter dúvida, mas sim a matá-las). Você duvida de sua incapacidade de falar, duvida de sua mente clara e limpa, duvida até que um dia pensou no direito de permanecer calado como algo pretty cool (agora o cinema mudo não é nada além de brega). Duvida, principalmente, que vá conseguir passar um só dia sem ter algo a falar em sua companhia. Com ela, até o silêncio parece tagarela.


lyrics

domingo, 21 de setembro de 2008

Mr. Sandman, bring me a dream

Sonho com o dia que alguém olhará para meu cabelo e dirá: "é preto mesmo". Não que não seja. Mas ninguém acredita que é. Preto parece ser uma cor natural não existente em minha terra. As vezes, é pior que louro no quesito credibilidade. Por isso que, por exemplo, pessoas que conseguem soletrar metrossexual ao contrário olham para ele e perguntam se é pintado. Pô, sou machão pernambucano daqueles com três cojones roxos, essa pergunta é chata. Isso me faz sonhar no dia em que as pessoas vão perceber o que é evidente sem precisar ficar repetindo ou usando o óbvio como argumento. Exemplo: "evidentemente, calor esquenta". Sim, evidentemente não pinto o cabelo (o que é evidente).

Falando em sonhos, tenho alguns outros: quero ser ferreiro, carpinteiro, capitão de navio e contador de histórias. Por um motivo nobre e egoista, sempre achei os pais de filmes de família legais. Eles sabem fazer tudo que a casa necessita. Nessa hora alguém deve ter lembrado que a casa necessita de eletricistas e alguém que entenda de encanamentos. Como um bom pai de família de cinema, eu também sonho em me meter no que não entendo. Possivelmente, farei a casa ruir, mas espero que alguém me faça perceber que não entendo daquilo um pouco antes disso (afinal com os pais de família de cinema, o único argumento válido é o coração).

Vou gastar uma vida recuperando as besteiras que fiz (um pai de família de cinema não vive com o coração em pedaços). Assim, terei muitas histórias que os netinhos ouvirão antes de dormir, com as devidas alterações, como a inclusão de supervilões e coisas mágicas. Não que as histórias sejam ruins (vale lembrar que serei um contador de histórias), mas elas vão fazer os pequenos sentirem vontade de sonhar seus próprios sonhos. Penso que serão bons sonhos. Com muito bang bang, piratas e cavaleiros, espero. Sei que qualquer educador ou psicólogo metido vai dizer que isso é má influência. Mas o que diabos eles entendem de sonhar afinal?

Só dispenso ser viúvo e ter duas filhas gêmeas que vão ficar me forçando para arranjar alguma namorada ao gosto delas. Nups, os pequenos têm que saber o seu devido lugar.


lyrics

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

The Catcher in the Rye

Holden Caulfield é o adolescente que fomos (e que alguns nunca deixam de ser). Por algum tempo somos rebeldes e não nos encaixamos no "sistema" chamado vida. É quando andar sentado numa escada rolante é um protesto contra tudo e todos (não importando o quanto ficamos com a bunda suja no processo). Apesar de todos os protestos ridículos e da falta de um bom motivo, as vezes sentimos que essa é uma fase perdida de nossas vidas. E se alguém disser que todos aqueles problemas existenciais e piegas que enfrentamos são reais e que são um assunto para se levar com seriedade, pois se não forem superados podem fazer de você um, hã, desajustado? Eu diria que já vi isso em Malhação, mas JD Salinger me parece muito melhor nisso (até porque Malhação fala apenas de jovens adultos imbecis que tomam suco para curtir melhor a night com a galiera).

De agora em diante eu fico muito tentado a sugerir esse, esse e esse vídeos para se ter uma idéia de tudo que se fala por lá. Alguém distraído e insensível pode passar pelo livro inteiro pensando em Holden como um fresco problemático que odeia o mundo inteiro porque todos vivem numa falsidade descarada e que, muito provavelmente, ele (Holden) apenas gostaria de viver nessa falsidade sem se sentir mal. Esse insensível seria chamado de phony pelo Holden. E seria merecido. Após acompanhar Holden por meio livro simplesmente tentando ser ouvido por alguém e falhando, só alguém insensível e phony conseguiria achá-lo mais um drama estilo Malhação. Ele fica deprimido exatamente como qualquer ser humano ficaria. Até aquele gordo de cueca jogando World of Warcraft às três da manhã do sábado ficaria triste nessa situação.

O curioso é que, apesar do papel que tem, não é exatamente a tristeza quem leva o Holden a ter sua pequena aventura de 48 horas mais ou menos. É a esperança de que mesmo no fundo do poço ainda há uma saída que guia Holden. Por muito tempo, ele crê que a saída seja a fuga, o isolamente e até a morte algumas vezes (oh yeah, mesmo assim não perdôo os emos). Ficamos fascinados por isso.

Não pelas saídas ruins, claro. Mas sim porque Holden Caulfield é muito real. Isso me levava a vez por outra pensar em The Truman Show. A sensação de que estamos vendo uma história real se passando com alguém real e que não queremos influenciar só para ver o que o cara lá faz para continuar sua história é constante aqui. Pelo menos a vida do Holden não era uma grande farsa como a de Truman (e é aqui que as semelhanças findam). Principalmente porque é ele é o narrador da própria história. Isso é um dos tchans da história. O que levou aquele cara tão real que estava tão mal a falar sua própria história de forma tão longa e detalhada, principalmente, quando notamos que ele passa o livro inteiro sem conseguir se fazer ouvir por alguém?

Fico tentado em me responder e estragar uma leitura de alguém, mas lembro que o universo inteiro já leu esse livro e sou eu que estou atrasado aqui. Enrolei demais para lê-lo e me arrependo de ter feito isso. Um livro ótimo para saber se você tem, se já teve ou se ainda vai ter um coração algum dia. O meu está aqui com o Holden e com todas as pessoas que gosto.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

10 bolas de sorvete um real

Estamos numa nova era. A tecnologia invade o nosso dia-a-dia e faz Jornada nas Estrelas parecer um brega setentão (blábláblá...). É até estranho pensar que isso acontece no Brasil; afinal aqui temos uma cultura forte e cultura impede qualquer avanço tecnológico (em minha terra, a cultura impede qualquer tipo de avanço. Até o mental). Sempre imaginei o Brasil como uma imensa ilha quente, sem fronteiras, cheio de mulatas seminuas que sambam enquantos os muleque jogam uma pelada. Não precisaremos de inovações melhores que uma caixa de fósforo, radinho de pilha ou freezer (a cerva PRECISA ser gelada, disso não se abre mão).

Aliás, a tecnologia tem uns aspectos curiosos em minha terra. Penso que nunca vamos ser evoluídos porque as pessoas simplesmente preferem continuar vivendo de forma ruim. Sim, opção própria. "A tradição nos trouxe até aqui" me parece uma outra forma de dizer "o que não mata engorda". Se algo é tecnológico, então deve ter uma bruxinha do capitalismo fazendo feitiçaria dentro daquele celular. Ou, por algum motivo aleatório, o toque polifônico destrói a alma do frevo (que cresce assustadoramente lançando zero músicas novas por ano. [Aliás, é muito curiosa a tradição que vive de subsídio, mas como Mestre Salu bateu as botas esta semana então deixa quieto]).

Indo direto ao ponto: o pernambucano tem um severo problema em lidar com coisas novas. A situação onde melhor vejo aplicada essa máxima é quando acontece o dilema do ar condicionado coletivo.

Supondo que estejamos numa sala que fica numa terra onde a temperatura mínima durante a noite do inverno à sombra da lua chega aos 24º. A sala está cheia de gente. Não é preciso pensar duas vezes para deduzir que ela esteja quente. Mas a ciência moderna inventou algo para esses casos. Uma maravilha chamada Ar Condicionado que é capaz de aliviar um calor, chamado neste exemplo de infernal. Infelizmente essa não é uma sala com pessoas quaisquer. São pernambucanos. Bastará que a temperatura chegue aos 29º para que alguém comece a pensar no frio. 28º já vira região sul. 27º Buenos Aires. 26º Europa. 25º Era glacial. E vale ressaltar que essas temperaturas são as indicadas pelo aparelho, afinal somos incapazes de dizer a temperatura sentindo o ambiente e muito menos definir frio ou quente.

Temos um sangue quente e revolucionário, não é a toa que somos o Leão do Norte. Fatalmente, alguém vai reclamar. E pior, como temos o hábito de perder revoluções, simpatizamos com qualquer tipo de reclamação. Com uma turva sensação térmica e o apoio das massas, o ar condicionado sempre sai de vilão. E para que dialogar sobre a questão? Oh yeah, muito sangue será derramado por causa dessa inovação segregadora.

Se o pernambucano quiser algum dia poder dizer que finalmente evoluiu em algo, poderia começar percebendo para que serve um ar condicionado.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Ninguém Merece

Lá está você sentado, deitado, trabalhado ou apenas mamando nas tetas gordas do Estado. Se estiver em casa, pode deixar sua mente ir para qualquer parte do cosmo, seja no presente, futuro ou passado (ou nenhum deles de preferência). Já se estiver em locais públicos, então você corre um sério risco de ouvir um ditado popular. E nem falo dos mais simples moralistas (aqueles velhos do tempo onde ditados queriam dizer alguma coisa). Ninguém nem se lembra mais que quem com ferro fere, com ferro será ferido (até porque o chumbo da atualidade quebrou a rima).

A tal da mente social coletiva é responsável por criar muitas gírias sem graça e de mau gosto que nossos ouvidos distraídos acabam pegando. "Ninguém merece" é uma dessas expressões populares altamente questionáveis. Ela é usada em qualquer situação sem o menor critério. Exemplos:

- Está chovendo. Ninguém merece...
- Está fazendo sol. Ninguém merece...
- Como o cara perde um gol daqueles? Ninguém merece...
- Bombei no vestibular. Ninguém merece...
- O mundo vai acabar amanhã. Ninguém merece...
- Vou passar cerol na mão! Ninguém merece...

Ok, cansei. Já deu para notar como não é necessário critério nem contexto para mandar um 'ninguém merece' quentinho nos ouvidos de alguém. Há pouco tempo, os populares decoravam algumas centenas de ditadinhos (ou os criavam, sei lá) para usar em cada ocasião com o máximo de precisão. Casa de dentista sem fio dental: "casa de ferreiro; espeto de pau". Tudo no intuito de demonstrar sabedoria e pôr sua cultura inútil em evidência.

Mas havia nos ditadinhos antigos uma criatividadezinha meio romântica (ou pelo menos uma rima besta). Hoje, o melhor que se cria é um 'pé rapado' de Malhação no lugar do tal 'sem eira nem beira'. Antes chupar prego para ver se vira parafuso.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

O Velho e o Mar

Um dos raros casos de tradução literal de títulos do inglês para o português. Rara também seria a beleza dessa história se eu estivesse ouvindo algo emo por aqui. Só posso dizer que é mó bonitinho e simpático, como toda e qualquer história que fale de pobre e sofredor ("que é antes de tudo um forte").

Um velho pescador chamado Santiago cai no mar para ver se afasta a quizumba de passar 84 dias sem fisgar nada. Ele se arrisca mais para os outros seguindo para o mar aberto e lá pesca o maior peixe da sua vida (de sua vila e de sua ilha, provavelmente). Claro que nada é fácil para pobre. Ele precisou de 2 dias para conseguir capturar o peixe em um duelo homem x natureza.

Duelo esse que trocando um peixe por um samurai e trocando a linha de pesca por uma espada seria bem nerd. Eles têm essa paixão por coisas lentas e introspectivas, algo como: "sou o cara mais foda do universo inteiro, o que preciso para vencer meu inimigo supermaisfodaqueeu é apenas encontrar o meu eu interior". E voi là; fim de luta. Geralmente termina com uns dizeres à la 'o meu Kung Fu é melhor que o seu'.

Hemingway não fala de bobagens para salvar o mundo e nem encontrar o eu interior. Ele simplesmente fala de um velho sem sorte e debilitado que conseguiu lutar contra todas as adversidades usando apenas sua experiência para fisgar o maior peixe das paradas. O velho se supera, mas não previra que a luta não estava terminada. Seu peixe é devorado por outros e no fim temos apenas um velho pescador sem sorte e triste (o que nos deixa triste, por sinal).

É um livro bonito. Não indicado para quem quer um pouco de ação, claro. Mas é um dos tops daqueles livros que qualquer pessoa deveria ler antes de morrer (o resto deixa para depois).

.....

Cheguei ao post 100 e ainda me agüento, céus! Estou ficando velho!

terça-feira, 5 de agosto de 2008

In Nomine Dei

Todo mundo já teve um professor de história comunista que falou na época da reforma (lembrando sempre aquela aula sobre as torturas da inquisição) e que vivia criticando a Igreja por sua postura, hã, religiosas (ainda espero algum reclamar que o nome Igreja Apostólica Católica Romana não é um nome cool e comercial e que se o nome Igreja fosse oficializado [antes de ser roubado pelos crentes] a história seria outra...). Bem, teve muita guerra por religião e muita briga para decidir se eram os bizantinos ou os gregos que ficavam discutindo o 'sexo dos anjos' e merecendo a autoria da expressão.

Saramago pega esse tema rebatido e brinca de ateu em In Nomine Dei (parece que todo ateu tem essa necessidade de vez em quando). A peça se passa em Münsten durante os anos da reforma anabatista (1532-1535). Os reformados insistem que o seu Deus é mais deus que o Deus dos católicos e dos luteranos. Nessa salada de deuses a briga estoura, a cidade é sitiada e os anabatistas são derrotados.

É tudo bem simples e sem nenhuma enrolação (nem parece Saramago, mas ele geralmente faz isso nas peças [talvez porque sejam, hã, peças]). Ele mostra o radicalismo religioso como feio-feio-feio e que nesse meio fica muito mais fácil de charlatões aparecerem. A história pode ser modernizada utilizando alguns milhares de pastores modernos (afinal, Igreja é o negócio que mais cresce no país desde 1500) e/ou jogadores de futebol. Mas é melhor nem pensar nisso porque caso contrário alguém pode me excomungar de algum credo alheio. Independente de fé, inferno é inferno. Não quero estar em nenhum deles.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Infinite Jest

Oito meses... oito longos meses. Levei isso para ultrapassar um tijolo de 1079 páginas (sendo pouco menos de 100 delas só de notas de roda-pé). Por um momento achei que o livro era realmente infinito, por outro achei sem propósito achar que eu ia chegar ao final. Agora que aqui cheguei desconfio que Infinite Jest de David Foster Wallace provavelmente deve ser um dos Best-sellers menos lidos da história (mas ainda perde humilhantemente para Danielle Steel nesse quesito). É o livro mais longo que já li, não por questão de tamanho (afinal, já li Musashi), mas de forma e de estilo (ok, a letra miúda e as páginas imensas ajudam nisso, mas esses quesitos ainda pesam mais).

O autor utiliza essas mil páginas para falar de tudo um pouco. Aliás, boa parte do livro você se pergunta sobre o que diabos aquilo tudo se trata porque nada parece ser realmente abordado (nem mesmo a própria narrativa). A Wikipédia condensa até de forma legal os diversos tópicos abordados. Por sinal, este livro é cheio de resenhas e comentários espalhados por ai. Provavelmente todos tentam entender alguma coisa falando sobre o livro. Deve haver lá algum propósito escondido lá dentro (e há muitos). Mas só cheguei a três conclusões:

- Fala-se sobre um cartucho/filme capaz de fazer as pessoas não terem mais desejo algum. Ficam lá vendo e revendo o filme até morrer. Esse filme é trabalhado durante todo o livro e só tendo uma memória de elefante para lembrar de todos os detalhes que vão construindo o filme por 1000 páginas (mas sim, é possível) (e sim, o filme acaba virando uma arma, [spoiler] mas tudo faz parte da grande piada proposta pelo autor);

- Esse é um caso raro de tragicomédia (geralmente eu prefiro até pensar que elas não existem, mas é que aqui realmente é impossível não rir da desgraça alheia);

- Tem muita gente falando idiotamente correto sobre o livro. Ficam pensando em críticas pós-multiculturalistas e em pensamentos (sim, eles pensam sobre pensar). No meio dos pensamentos alguém percebe que o livro é bom, mas só o acha porque não o consegue entender e assim chega a conclusão de que é uma bela obra de arte. Bastava dizer que era bom e inteligente, ao invés de arranjar adjetivos que só comunistas de diretório acadêmico entendem.

Ok, minto. Tenho mais conclusões. Porém elas são mais pessoais do que de fato sobre o livro. Acontece quando você segue lendo e pensa em outra coisa. Garanto que isso é muito comum na leitura de IJ. O problema é quando você fica pensando na morte da bezerra e segue lendo. Ser distraído só me parece bom para não perceber assaltos.

Voltando, a forma dele ajuda a dar asas à imaginação. Vi peças, diálogos, críticas, artigos, resenhas, roteiros, ensaios e até glossário lá no meio do livro. Só faltou poesia (ou será que não lembro?). É por isso que o livro fica parecendo maior do que já é. Mas há que se reconhecer que é um ótimo livro. Um épico disfarçado de ficção científica que fala de um futuro não tão improvável (por sinal, boa parte dele se situa cronologicamente no que seria 2008). Ele também ajuda qualquer pessoa a largar das drogas mostrando muita gente fudida por ela. Aliás, não só por drogas, por qualquer tipo de vício/mania/hobby/obsessão.

Enfim, há muito que dizer sobre ele. Só lendo para ter noção de sua grandeza. Quem tiver tempo e disposição para uma boa escalada, cá está uma boa montanha a ser transposta.

Frase não spoileadora que é um dos pontos principais do livro e supostamente ajuda a largar a bebida:

"the truth will you set you free, but not until it's done with you"