domingo, 20 de julho de 2008

Kokoro

Já disse aqui como encontrei o Natsume Soseki. Como ele se apresentou como um bom autor desconhecido para mim, decidi procurar mais sobre ele. Encontrei Kokoro largado em uma prateleira cinza enferrujada. Infelizmente o estado não era tão bom quando o de Botchan, mas ainda está legível (afinal, em 30 anos sou a 3ª pessoa a por as mãos nesse livro).

Kokoro é um livro é um livro que retrata o Japão da Era Meiji e as mudanças de um feudalismo para um modernismo em poucos anos. Segundo a wikipedia, o título pode ser traduzido como 'coração' (mas japonês nunca se sabe). Poderia sugerir de forma infame que Soseki quis mostrar como era o coração da revolução imperialista (mas não teria graça). Kokoro toma como narrativa a relação entre dois homens: o protagonista, um jovem estudante de qualquer coisa, e Sensei, um velho que não faz nada, e é antipático, grosso e antissocial.

Por algum motivo aleatório, o protagonista olhou para o Sensei e disse: 'vou ser amigo dele'. Após algumas tentativas tentando superar as qualidades supracitadas do Sensei, o protagonista consegue se aproximar e de criar uma amizade. A proximidade mostrou que Sensei tinha um segredo. Dai a história segue até a revelação do tal segredo, mas hoje nem atacarei de estraga prazeres.

É um livro que fala sobre amizade, sobre família, sobre o papel da mulher, sobre a universidade (o conhecimento, de forma mais geral) e sobre o Japão. Além disso, ele fala sobre o amor e sobre o ressentimento. Fosse Soseki um ocidental, o final seria completamente diferente. Para esse japa nascido entre duas eras bem distintas, o amor ainda não tinha esse poder salvador (ou total, como na moral cristã). Assim já adianto que haverá uma tragédia. E não é uma daquelas com propósito e que você pensa 'é, né...'. Acho que simplesmente discordei do autor na, digamos, moral da história, mas isso realmente não importa.

Em Botchan, o protagonista odeia o mundo e se isolava pelo temperamento. Em Kokoro, o isolamento parece mais profundo. Atinge o coração das relações de uma sociedade em mudança. Assim, das duas teremos uma: o autor ou é amargurado ou escrevia para criticar sua época. Mesmo assim é um bom e pequeno livro. Um daqueles para ler e pensar, mas acho que é para pessoas mais velhas ou mais isoladas que eu.

Uma frase que achei legal lá:
"Words are not meant to stir the air only: they are capable of moving greater things."

domingo, 13 de julho de 2008

20 dias sem suor e nem humildade

(a idéia inicial era duas semanas sem suor. Mas o tempo foi passando e cheguei aos 20. Antes que se tornem 30 decidi me forçar a fazer isso).

Descobri que sou realmente ruim em não fazer nada. Não fiz absolutamente nada e isso realmente incomoda quem passou um ano metido nos mais altos esquemas da política regional. Após isso decidi que realmente deveria fazer alguma coisa. Como passei muito tempo sem fazer nada, seria perigoso começar com algo mais algum exercício mais pesado. Experimentei sentar no computador. Mesmo assim continuei com um tédio infinito (tão infinito quanto o livro que estou lendo agora).

Daí lembrei da lista de comunicação e pensei: "nossa, vou arranjar uma briga lá para aquecer o inverno nordestino". (Para quem não sabe, o inverno nordestino tem média de 28º à sombra, mas chove o tempo todo).

Nem precisei procurar muito para arranjar um motivo de discórdia (lá ela já nasce naturalmente). Bastou dizer que fazer blogs com as matérias produzidas durante uma cadeira do 3º período é uma idéia ruim. Resultado: milhares de emails chamando os criticadores de "feio-feio-feios" e também exigindo suas humildades.

Sem nada para fazer, lá fui atrás de humildade no google (ao contrário do que parece, é realmente fácil achar humildade por lá). Por algum motivo aleatório, devemos sempre respeitar quem faz alguma coisa. É uma forma de dizer que alguém fez uma droga, mas que você não conseguiria fazer muito diferente, então não há problemas em fazer drogas. Também é necessário dizer a quem começou a aprender qualquer ofício que ele está fazendo um bom trabalho (merda), mas que vai melhorar. Isso nos ajudará a entrar pela porta da frente na sagrada reitoria ocupada dos céus (com duas entradas para o cineocupação, uhúl!).

Nesse ponto fico a doente Ayn Rand mesmo. Humildade não é uma virtude. Pode ser uma questão de etiqueta não esculhambar os outros, mas isso está longe de reconhecer como bons trabalhos medíocres. Além disso, humildade (usando uma definição de wikipedia) seria uma qualidade pessoal. Eu não preciso ficar esfregando minhas virtudes nos outros e eles não precisam ficar me lembrando delas.

Só nunca vi ninguém ficar rico, famoso ou bem sucedido por ser humilde e não combater os defeitos. A não ser quem não tenha defeitos, mas ai já é outra história. Vou agora garantir meus lugares no cineocupação.

.....

ps: o Tobol Kostanai empatou com o Kairat Almaty, mas ainda lidera a Super League do Kazaquistão. Azat Nurgaliev abriu para o Tobol Kostanai aos 15 minutos do primeiro tempo. Aos 10 do segundo tempo, Vladimir Yakovlev empatou para o time da casa.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Relatório de estágio

Passei alguns dias pensando em alguma forma emotiva para dizer que não mais estagio num ambiente público (burocrático/democrático), mas acho que a única sensação que me restou foi a vontade de me superar por lá. Penso que só volto lá como deputado, mas é claro que isso é um exagero (afinal se no Brasil temos que sonhar com um emprego numa empresa, que seja o melhor deles. É melhor deixar as pequenas coisas para a realidade).

Outro ponto que me faz não querer atender esse desejo é que, ao acompanhar de perto os políticos de todas as situações, acabei ficando com pena deles. Deputado sofre muito. Parece brincadeira, mas é bem verdade isso. É fácil esquecer que eles são seres humanos e que não dá para classificá-los em largos grupos com bandeiras de partidos no lugar de faces.

(Claro que também preciso assumir que vi de tudo lá. Dos tipos mais inocentes aos mais nefastos de corrupção e abuso de poder/autoridade/voz/gordura/paciência/etc. Boa parte não é tão grosseiramente culpada, mas a inocência ainda persiste em um ou outro. Por incrível que pareça, de fato, existe deputado honesto).

Servidores públicos são quase iguais. Com a diferença de não serem votados. Se bem que na casa legislativa há uma diferença entre eles. São três tipos de servidores basicamente: os contratados (com direito a permanecerem calados e enfiarem o rabo entre as pernas; são a base da pirâmide), os comissionados (com direito a voz depois de declarado enfio de rabo entre as pernas; maior segurança, mas direito algum) e, por fim, os concursados (com direito a falar sem enfiar nada em lugar nenhum e com o direito a trabalhar como quiserem; sim, aqueles que envelhecem, fazem piadas e palavras-cruzadas enquanto procuram aquela ficha que você espera por 3 horas). O legal de minha generalização é que nem é tão assim que ela se apresenta na realidade.

Também há outra esfera de poder: os sem poderes. Se pensou em serventes e vendedores de sala-em-sala, você se engana. Quem não tem nada mesmo é estagiário (apesar de que lá há relatos de estagiários com Mercedes e BMWs). Estudante ganha menos que o servente de lá.

Enfim volto ao status de quem não tem nada para fazer. Vou poder continuar as leituras atrasadas e curtir minhas primeiras férias em quase 2 anos. De quebra ainda arranjei um pc novo com o qual me ocupa em ocupar os 250 GBs de HD que ele tem.

Agora chega de diarinho. Sempre achei relatórios de estágio coisas inúteis. São como uma redação de "minhas férias" (ou de "como fiz para me manter ocupado durante o recesso" no caso instituições federais grevistas). A diferença é que esses ninguém lê mesmo e só resta a leve impressão de que já vamos tarde.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Sobre como eu percebi o princípio do fim do Universo

Começou com uma afta. Por três dias ela continuou crescendo sem dar sinais de trégua. Logo percebi que nem o Universo lhe será o bastante.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

A Peste (again)

No fim das contas, a peste me fez refletir. Fiquei pensando se realmente havia pego a idéia lá do Camus (franceses têm essa habilidade de serem geniais travestidos de idiotas fazendo coisas idiotas. Por exemplo, Victor Hugo, que se meteu em política francesa, e Alexandre Dumas pai, cuja foto dispensa comentários). Foi enquanto debatia o assunto com meu eu-lírico que cheguei a uma conclusão: Camus é genial.

Tudo é questão de uma simples interpretação.

Lá estava Deus sem fazer nada porque fez tudo em sete dias e ficou com o resto da eternidade livre quando observou uma cidadezinha feia cheia de franceses fazendo o que franceses fazem: falam francês em cafés enquanto tomam vinho e falam sobre arte (sem esquecer a expressão blasé jamé). No meio de todos aqueles serem empertigados de egos avantajados, havia um médico (o protagonista e narrador) que se destacava na arte de ser mais francês que os demais franceses (além de todo o resto ele era ateu e moralista).

O Pai Todo Poderoso pensou consigo próprio: "ó meu Eu! Preciso fazer esse meu filho a quem já perdoei pensar um pouco".

Deus, que já havia deixado tudo pensado de antemão, sacou seu plano secreto de fazer as pessoas pensarem. Funcionou muito bem na primeira vez que foi usado, mas Deus decidiu aderir a moda e optou por tirar coisas bregas como gafanhotos, sapos, rios de sangue e chuva de fogo. Os franceses seriam insensíveis a castigos divinos. A única coisa que poderia chocá-los seria um ultra-naturalismo seco e escarrado.

A primeira ação é mandar peste na cidade do sujeito a ser atingido. A peste não é exatamente chocante, mas como o alvo é médico ele vai ter que olhar para ela e meter a mão na massa. O ataque de Deus é claro, pois o primeiro a morrer de peste é o porteiro do médico. Desde o primeiro caso o médico já entendeu que a peste servia para refletir, mas sabem como é? Deus gosta de ter certeza.

Só para confirmar a reflexão, a peste leva o Juiz, o Padre, os amigos, a esposa, milhares de pessoas que eram enterradas em valas comuns ou cremadas, todos os ratos, todos os gatos e todos os cães (imagino que todas as pulgas também). No fim o Pai olhou orgulhoso para seu feito e viu que havia atingido o objetivo estabelecido antes do surgimento do cosmos: o médico estava refletindo (fora dos cafés, por sinal).

No fim Camus consegue pintar uma figura do que é necessário para fazer um francês típico pensar. Afinal tem alguma forma mais fácil que essa?

domingo, 15 de junho de 2008

A Peste

Sempre tive um pouco de nojo de quem lia esses autores franceses metidos a filósofos. Quando via alguém com o Foucalt na mão, eu começava a rir como quem lembra uma piada que não havia entendido. Enfim, vivia feliz com os meus preconceitos.

Desde Botchan peguei um mal hábito que, sabe-se lá porque motivo, me parece divertido: pegar um livro qualquer na biblioteca seguindo um critério aleatório e arbitrário. Em Botchan, foi a capa que me atraiu. Agora por que diabos um francês metido a filósofo veio me atrair? Ok, eu sei porque.

Primeiro, porque o livro era novo e isso realmente tem muita influência (minhas delicaladas mãozinhas não gostam de poeira feia-feia-feia). O segundo motivo foi porque li as primeiras páginas e nelas vi algo bem saramagonesco. Algo realmente legal.

Bem, logo de cara Albert Camus apresenta Oran, uma cidade feia e cheia de gente que está nem ai para nada (imaginei uma cidade cheia de gente que veste boinas e enche os cafés um olhar blasé). Do nada, os ratos da cidade começam a morrer, mas ninguém se importa. Também do nada, quando já não há mais ratos, as pessoas começam a morrer, mas ninguém se importa. Até que a cidade é fechada e posta em quarentena. Parecia tudo bem encaminhado, mas...

Para mim o livro termina ai. Depois disso o que vemos é enrolação sem igual. A palavra 'peste' é repetida tantas vezes quanto 'confusão' em propaganda de Sessão da Tarde ou 'adrenalina' em Tela Quente. Nesse ponto, ele começa a argumentar que a 'peste faz as pessoas pensarem'... doeu fundo. Lembrei de quando ouvi na faculdade sobre um lugar que as pessoas não tinham onde cagar, "mas o pior mesmo é elas são analfabetas", disseram. O pior mesmo é que ele escreve bem; ele tinha uma boa idéia; mas ele precisava jogar tudo fora como jogou?

Quando já não tinha mais o que dizer sobre a peste e sobre reflexão de dor e isolamente, Camus começa a matar seus personagens. Faz sentido quando milhares de pessoas morrendo de peste. Ele mata justamente quem tomou todos os soros e se cuidou (e teve um que foi o único a morrer na história inteira de outra doença). Ou seja, mata só para dizer que peste é isso mesmo e que todo mundo morre. Só sobrevive o narrador que deixa sua mensagem de: "pense nisso, ui!".

A conclusão é uma daquelas do tipo: 'ó meu Deus! Vamos sempre lembrar da peste e do que ela nos causou'. Enfim... decepciona.

Mesmo assim, não largarei meu hábito. Já peguei aleatoriamente "E Jimmy foi ao Arco-Íris" de Simmel. Pode até ser ruim, mas não resisti ao título.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Aliviado

Sabe... estou bêbado. Não só pouco bêbado, mas completamente ébrio (só para usar uma palavra diferente). Mas tudo tem um motivo, é bem verdade. O meu é muito simples. Meu time me surpreendeu e vai agora disputar a Libertadores da América. Lembrando que ganhar do Coringão sempre é bão!

ps: será que cabe mais uma estrela?

sábado, 7 de junho de 2008

Explorando o esporte

Eu realmente sou ruim em esportes. Mesmo assim ignoro minha condição de perna-de-pau convicto e constantemente me arrisco entre as quatro linhas com o objetivo de não provocar gols contra meu time (o que nem sempre acontece). Como torcedor também não escolhi um dos melhores do mundo. O meu Sport apenas consegui perder de 3x1 para o Coringão. Se depender da torcida contra-coringão, venceremos a Copa do Brasil e o caneco ficará por aqui mesmo. Mas ok, essas chances de ser campeão não acontecem sempre com meu time. Prefiro ignorar a realidade e sigo torcendo pelo meu time (tipo, pelo menos somos melhores que a Ponte Preta que em 200 anos de história nunca ganhou nem o campeonato paulista).

Mesmo assim o Gussie me atingiu dizendo que não entendo nada de esportes. Tive que concordar em parte e decidi procurar entender um pouco mais sobre algum esporte bizarro e desconhecido. A primeira opção era a luta greco-romana, mas depois que o Pops Racer mostrou o quão legal ela pode ser nem tem mais graça falar nela como luta estranha. Aliás, quase qualquer arte macial é amplamente conhecida. Até estilos de países improváveis, como o Krav Magá de Israel, ou criados para serem 'sem estilo', como o Jeet Kune Do de Bruce Lee, são reproduzidos por semi-nerds anabolizados em diversas academias por ai.

Ah, sem esquecer do ninjutsu, claro. Afinal o que seria da sessão da tarde nos anos noventa sem aqueles filmes de ninjas americanos e garotos ninjas? Também vale lembrar todas as reportagens com aquele povo que acha o máximo ser ninja e diz que tem muita filosofia por trás daquelas roupas discretas.

Enquanto divagava entre o Judo e o Wushu, acabei lembrando da pior e mais bizarra arte macial já inventada: o Sumô. A luta consiste em dois gordos lambuzados de sal, ervas e usando fraldas fio dental que tentam se derrubar mutuamente no chão ou fora do ring. Uma invenção genial dos japoneses que conseguiram criar rituais complexos e deram status a pessoas que conseguiam ser bons naquele tipo de luta. Na verdade, acredito que seja a única luta no mundo que conseguiu fazer isso com os gordinhos (a não ser que você acredite naquele filme do gordo ninja da sessão da tarde). O Sumô também ajudou a desenvolver a tecnologia de prendedores fraldas (graças a Deus Pai Todo Poderoso, elas são muito bem presas). Além disso, os japas gordos foram os primeiros (muito antes das feministas) a mostrarem com orgulho toda a extensão de suas celulites.

Após a breve e aprofundada pesquisa que fiz, fui buscar algo para ilustrar. Acabei descobrindo que os japoneses realmente conseguem tornar qualquer coisa estúpida ainda mais imbecil.



Os americanos não ficam muito atrás ao achar que podem fazer algo legal com lutadores gordos.



Pós-aviso: cuidado ao visualizarem esses vídeos. É necessário ser estômago forte.

No fim aprendi a lição e descobri que é realmente bom ser ocidental. Além disso, pretendo nunca mais tentar entender de esportes e muito menos de arte marciais (com excessão da luta de mulheres na lama; essa ainda merece especializações contínuas).

terça-feira, 3 de junho de 2008

Sul X Nordeste (uma daquelas rivalidades que a Globo inventa)

Pode até não parecer, mas aqui no Nordeste a gente realmente não tem o que fazer. Não parece porque há cidades como Porto Seguro, Salvador, Fortaleza e Recife que dão a entender que sempre teremos chance de encontrar alguma coisa no caderno cultura (nem que seja ajudar uma ONG que limpa catarro de bebês cegos, ou um show exclusivo de qualquer cantor bicho grilo vestido que nem Chico Science e cantando algo entre forró, axé, rock e maracatu). Mas no geral o Nordeste é uma grande faixa de terra sem ter nada para fazer, além de reclamar que a mesma seca de quinhentos anos atrás está fazendo o povo sofrer e pedir ajuda do governo.

Essa falta do que fazer acaba levando os nordestinos a achar que sua própria falta do que fazer é culpa do excesso de coisas para fazer que os estados do sul/sudoeste possuem. Uma lógica muito acertada. Afinal, se seu vizinho é mais rico e culturalmente mais bem formado e diversificado que você, ele está moralmente obrigado a dividir tudo isso com você, pois vocês são vizinhos! Vejamos pelo bom lado, há criancinhas do sul que ficam felizes quando ajudam os pobres nordestinos. Sempre é lindo ver um sorriso no olhar de uma criança.

Não era sobre uma rivalidade social que eu queria falar. Aliás, nem me importo com elas. Mas, ok, há uma que cultivo. Uma rivalidade futebolística. Apesar de eu não achar que ele chegaria lá, meu Sport eliminou o Vasco (com direito a falha de arbitragem e penalti à la Baggio) e está na final da Copa do Brasil. Essa vitória coloca o Sport o mais próximo da Libertadores, mas pela frente temos o time com a maior cartolagem já sonhada no futebol brasileiro. O Coringão tem no histórico uns quatro campeonatos da Série A suspeitos (o último com suspeitas comprovadas e escancaradas) e alguns não-rebaixamentos milagrosos demais.

É um adversário duro. Humilhado ano passado por não ter conseguido permanecer na elite nacional (na ocasião, o Goiás conseguiu um bom resultado contra um Internacional cheio de mágoas pela perda de um campeonato ajeitado para o alvinegro), o Corinthians chega cheio de vontade para ganhar a Série B invicto e já estrear na elite nacional e na Libertadores no próximo ano. Parece tudo muito ajeitado para que esses sulistas atinjam suas metas. Só falta combinar com o Sport.

O Sport está fazendo uma campanha belíssima na Copa do Brasil. Tirou Imperatriz-MA (grande potência maranhense), Brasiliense (campeão distrital), Palmeiras (campeão paulista de nariz em pé), Internacional (campeão gaúcho que comemora antes da hora) e por fim o Vasco (com Edmundo, o melhor cobrador de penaltis do mundo). O Sport vem melhor e derrubou melhores. Basta que não aconteça nada de suspeito para que ele consiga o caneco inédito para o Nordeste (e do jeito que somos por aqui, vamos nos gabar durante anos de ter conseguido algo que lá é comum. Quase como quem diz com orgulho e sotaque: 'Aqui tem coca-cola, sim!').

Agora chega de parêntese. Até lá, esperemos o resultado (e que seja positivo).

quarta-feira, 28 de maio de 2008

A brilhante história do jornalismo universal em PE (em suma: Falta do que fazer)

Sou distraído. Qualquer coisa é suficiente para jogar minha atenção para Marte em busca de lojas conveniência. Claro que, quando fui escalado para fazer pesquisas nos jornais do Arquivo Público daqui (muito bom, limpo e organizado apesar de público), acabei sendo levado por outras manchetes que mostravam o brilhantismo boêmio do jornalismo pernambucano. Ai vai uns exemplos literais de 1966:

- "VACA DOENTE MORREU NA VIA PÚBLICA E TALHADOR QUERIA ESQUARTEJÁ-LA PARA VENDER CARNE AO POVO".

- "LEOA MORRE NO ZOO E MACHO TERIA NOME DE 'LEÃO PENTEADO'".

- "UM DRAMA DO MOMENTO: FERTILIZANTES".

- "SÁTIRO É PELA ELEIÇÃO DIRETA E ACHA LEGÍTIMO CANDIDATURA DE COSTA E SILVA".

- "FANTASMA ESTÁ ASSOMBRANDO POPULAÇÃO DE CARNAIBA DE FLÔRES".

- "'CORAR ATÉ QUE ME ASSENTA BEM, E VOU ME APROVEITAR DISSO!'"

- "BRASIL DEVERÁ TER PRESIDENTE MILITAR ATÉ O ANO 2000".

- "MORTO O POPULAR NA RODOVIA BR-25, PELO CARRO EM DISPARADA: MAIS 4 ATROPELAMENTOS".

- "TÉCNICOS: NÃO HÁ SÊCA NO PIAUÍ".

- "'GALEGO' SURROU DE CACÊTE O POPULAR EM PRAZERES E FUGIU".

Uma outra coisa legal que tinha no caderno de esportes era a cobertura do turfe. Com direito até as fotos 3x4 dos cavalos favoritos.

ps: repostando e tentando curar o bug.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Por cima do ombro

Todo mundo tem manias péssimas. A minha só calhou de ser um pouco mais péssima que algumas, mas certamente muito menos péssima que a maioria. Eu tenho compulsão por saber o que as pessoas estão lendo. Não é perguntar a amigos ou nem ler todos os best-sellers disponíveis no mercado. Minha compulsão é só ficar curioso quando vejo alguém lendo algo em qualquer lugar. Pode ser na rua, num parque, na Igreja, numa sala de aula, no ônibus, numa livraria, até mesmo durante provas de concurso eu dou aquela olhadinha só para saber que parte o cara do lado está lendo (mas não copio nada porque parto do pressuposto de qualquer outro candidato é uma porta).

Claro que essa minha mania me faz ver algumas coisas curiosas. Principalmente quando se usa veículos coletivos lotados de universitários. Sempre há uma xerox ou outra. De saúde até exatas e passando por todas aquelas ciências humanas (aplicadas ou não, filosóficas e sonhadas). E foi nesse meio que vi um capítulo genial sendo lido: "emoção e valores".

Pena que não descobri o livro, mas só aquela página já deu para notar a genialidade seu conteúdo. Ele dizia que "quem mata sua espécie é irracional". O curioso é que para provar isso, não há nada mais óbvio que o o exemplo do ano de 1204, quando os cristãos invadiram Constantinopla e saquearam a cidade matando seus irmãos. Em cima disso o autor começava um debate polêmico: é o homem um ser racional ou emocional? Tudo baseado no argumento da frase aspeada.

Assassinato é irracional? O próprio google dá como resultado da busca por 'irracional' os números. Já o assassinato me parece algo muito mais lógico que qualquer emoção. Quem mata, sabe que aquilo que mata é um obstáculo a sua própria felicidade que pode ser removido caso morto. Então qual é a irracionalidade do assassinato?

Ele pode ser moralmente questionável e legalmente 'feio, feio, feio', mas irracional é a última coisa que ele é. Há nele uma lógica muito mais óbvia que em muitos outros lugares. Por exemplo, se o Ministério do Meio Ambiente tivesse uma lógica simples dessas, provavelmente seria mais fácil resolver o problema da Amazônia. "Quem derrubar árvore, morre!". Simples, efetivo e bastante retrógrado. Uma volta bastante funcional ao estado de natureza que colocaria todos os serralheiros nos eixos.

Mas, ok, apesar de desejar imensamente a morte de mais da metade das pessoas do mundo (a maior parte ou feia ou burra), penso que iria ficar meio fedido se elas realmente morressem. Deixo que a seleção natural dê conta do meu desejo e que elas simplesmente não existam num futuro brevíssimo.

domingo, 18 de maio de 2008

Do futebol em outras partes

Nascer no nordeste e, principalmente, viver nele tem suas desvantagens. Uma delas (que me parece a mais triste) é que aqui temos uma chance de acabar torcendo por times da terra. Não é obrigatório torcer para times daqui, há muita gente que torce para Corinthians e Flamengo por essas bandas. Mas morando em cidades como Recife, Salvador e Fortaleza, você tem uma considerável chance de torcer para times regionais, cujas glórias não estão nem no passado e muito menos no futuro.

O mais frustante é que você torcer mesmo. Aqui há rivalidades que até o garoto gelado percebeu há meio século. O povo realmente briga por futebol e realmente se empolga (com a exceção do Santa Cruz que agora habita a série C, mas não foi esquecido na página principal da globo. I wonder why). Todos os anos, a torcida inflamada fica sonhando com títulos que seus times não ganharão. "O que custa sonhar, não é mesmo?" sempre diz alguém.

Quando saimos do plano das rivalidades locais e vemos os jogos do campeonato brasileiro, a diferença fica, no mínimo, escancarada. Basta notar que na série A de 2007, o Nordeste se viu representado por três clubes que terminaram o campeonato em 14º, 15º e 20º (sendo este último o dono da importante marca de pior campanha disparada da história do campeonato brasileiro. A façanha do América-RN foi conseguir 11 pontos a menos que a então pior marca de 28 pontos do Santa Cruz em 2006. Um aproveitamento de 15%). Este ano, novamente o nordeste vem com três clubes. Será que alguém vai barrar o América-RN?

O pior mesmo acontece quando seu time começa a fazer bonito. Você como torcedor se enche de orgulho. E mais, outros torcedores se enchem de orgulho. Você a camisa de seu time em várias pessoas (até em mendigos) e acaba sorrindo para todas, porque você sente finalmente que há algo em comum entre você e sua terra. Você realmente começa a acreditar que chegou a hora de seu time sonhar com vôos mais altos e começa a bradar coisas sem sentido. "Que venha a Copa do Brasil, o Brasileirão, a Libertadores e Tóquio. Já comprei até a passagem para o Japão".

No fim, o realista sabe que lugar realmente seu time vai ocupar e vai ficar feliz com uma Sul Americana ou em não ser rebaixado, enquanto os outros torcedores decepcionados vão exigir explicações sabe-se lá de quem.

É o que vejo acontecendo ao meu querido Sport. Eliminamos os favoritos Palmeiras e Internacional da Copa do Brasil. Agora vamos enfrentar o Vasco cheios de empolgação e seguindo a lógica do 'quem elimina dois favoritos, passa a ser o favorito'. Até já estamos nos achando da Libertadores. Mas como torcedor acostumado a sofrer, só espero a manchete vermelha e preta: 'Acaba o sonho do Leão'.

.....

Um ps: se realmente acontecer de ganhar a Copa do Brasil. O Recife não irá dormir por uma semana. Então realmente fico na dúvida se é melhor perder ou não.

sábado, 3 de maio de 2008

A volta das Heleninhas

Como já disse antes, num ambiente político/público se discute todo tipo de absurdo ou assunto. É tudo uma grande e infinita repetição de fatos sem que exista nenhum progresso para lado algum. Há até quem diga que é esse processo que acaba desestimulando os parlamentares. Mas fala sério, eles criaram toda essa burocracia para si, pelo menos fico feliz em descobrir que alguns deles sofrem com isso. Para variar, não é sobre isso que vou falar. Apesar de tudo ser um grande teatro em repetição, algumas coisas acabam chamando nossa atenção.

Numa audiência pública que discutiu o inédito tema da violência infantil foi chamado um professor meio doido de minha terra (que foi censurado da matéria, por que será?). Segundo o professor Maluquinho, a violência é uma característica inata do ser humano, então era bobagem isso de 'aumento da violência contra menores ou de menores'. Tudo isso era natural e sempre vai existir.

Outro ponto do Maluquinho é que a família não está em crise. Para ele os valores da sociedade estão mudando e com eles a família também muda. Em miúdos, a família moderna é aquela de pais presos, das mães adúlteras e de primos-irmãos (além de outras combinações mais criativas que me dariam um processo se escritas), mas nada da família ser causa de violência.

Quando já estava me coçando, crente de que ia ouvir mais uma explicação sobre os valores do Estado criam violência ou algo como impunidade gera violência, o Maluquinho me surpreendeu. A verdadeira culpada da violência juvenil no país são as Heleninhas. E não pensem que ele deu uma de Cristóvam Buarque e prometeu salvar o mundo com a educação. Quem ensina ética e moralidade e nos impede de sair por ai tocando fogo em mendigo e baleando as pessoas são as professorinhas primárias. A verdadeira culpa da violência no país é das Heleninhas que não são mais o que foram.

Elas podem até não estar mais controlando a violência juvenil, mas um dia podem aprender a ser gostosas e fazer o que se faz em países ricos. Assim com certeza a violência dos pirralhas seria contida e o Brasil ia ser feliz para sempre e eternamente.

sábado, 26 de abril de 2008

Catota

Pré: é um conto que acabei fazendo para não dormir quando estava sem pc e sem vida social. Não esperem nada de bom.

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Catota nasceu numa família pobre que morava num bairro pobre. Logo cedo viu que a voda não lhe seria fácil. Seu pai foi preso e sua mãe lhe deu mais sete irmãos. Teve que trabalhar pedindo esmola para sustentar sua família quando sua mãe adoeceu. Ainda assim era obrigado a ir na escola para dormir por algumas horas. Tudo para não perder o benefício do governo. Aos doze, conseguiu um empréstimo de um garoto da ONG de seu bairro. O garoto ONG deu o dinheiro para Catota comprar um caderno de estudos. Catota usou a oportunidade para empreender seu primeiro investimento financeiro: um sacão de pipocas. Pode não ter estudado nem ser inteligente, mas com aquele saco Catota aprendeu um lição ao abrir falência: pipoca não é empreendimento. Pobre Catota, o garoto ONG deu dinheiro para todas as crianças do bairro que compraram pipocas. Pobre Catota, se tivesse comprado um caderno poderia vendê-lo para ajudar a família.

Um dia sua sorte iria mudar. Essa era uma certeza que sua mãe tinha. E não se enganem, a mãe de Catota não era mulher de ter certezas. Ela aprendeu desde cedo que pobre não pode ter certezas. Mesmo assim tinha duas: ela própria não teria futuro e Catota teria algum futuro. A primeira certeza veio quando ela nasceu. A segunda veio quando ela pegou se filho comendo catota para passar a fome. Nenhuma outra criança da favela fazia aquilo. Assim não era difícil perceber que Catota era especial. Também não era difícil perceber como ele ficaria conhecido. Para a mãe de Catota certezas eram coisas simples e perceptíveis logo de cara. Talvez por isso ela não tivesse tantas certezas. Pobre mulher, nunca pensou que o futuro do filho poderia pior que o seu próprio. Pobre mulher, não foi dotada de inteligência, fortuna e sorte.

Na verdade, a mãe de Catota tinha sim alguma sorte. Morreu sem ver a cara de tristeza de seus sete filhos. Mulher de sorte, nem viu o espanto de Catota, que aos dezoito anos se viu órfão, pobre, preto, feio, virgem, fudido e precisando cuidar de sete irmãos. Falando assim, parecem ainda maiores, mas não seriam suficientes para espantar Catota. Afinal todos sempre existiram, a exceção de um, claro. O que preocupava era como levar seus sete irmãos devolta para o barraco. Foi um primo distante, daqueles que de parentesco só restou a pobreza, que levou os irmãos para o cemitério público. Depois ele seguiu estrada para nunca mais dar as caras. Antes de partir fez um gesto de nobreza, provavelmente o único de sua vida, e deu um dinheiro para ajudar nas despesas. Pena que aquele dinheiro nem desse para a passagem de volta. Pobre primo distante, só quis ajudar. Pobre primo distante, mal sabia que Catota lhe seria eternamente grato por um tempo.

A mãe de Catota era mulher alguma religião. Como alguma não é algo definido, nem os espíritos podem dizer para onde ela foi. Uns dizem que ela reincarnou em alguma branca sueca pobre. Outros já dizem que ela virou uma estrela que brilha sobre a favela. Há sempre aqueles que dizem que alma de pobre só sobe aos céus. Mas houve um, só um, que achava que o espírito da mãe de Catota tinha virado uma brisa, daquelas que trazem bons e maus presságios, ou que pelo menos nos dizem para sair de guarda-chuva. Alheio a todo esse debate espectral, Catota decidiu fazer alguma coisa daquele dinheiro. Acabou experimentando sua primeira certeza: não compraria um sacão de pipocas. Foi então que uma brisa soprou e seguiu até a loteria. Essa brisa iniciou uma grande discussão semi-devastadora entre os espíritos que só foi resolvida quando todos concordaram em voltar a discuti-la no próximo congresso dos espíritos de origem/destino indefinidos que acontece em Agosto. Catota desconhecia sinais e muito mais. Ele se achou muito esperto por arriscar toda sua fortuna num só bilhete. Pobre Catota, passou fome por ter gasto aquele dinheiro. Pobre Catota, ganhou e nem sabia o quanto valia doze milhões.

Pode até não parecer, mas doze milhões é realmente muito dinheiro para uma pessoa só. É mais do que alguém que trabalhe a vida inteira vendendo pipocas pode conseguir. A não ser que você seja um rei das vendas de pipoca. Doze milhões parece saldo de balança comercial que se vê na tv; ou então custo de obras desnecessárias do governo. O governo saberia como gastar aquele dinheiro, Catota não. Pensou em comprar pipocas, mas se lembrou da última falência. Pensou em colocar os irmãos para estudar, mas se lembrou do próprio estudo. Pensou em doar para a Igreja, mas se lembrou que ela só pegaria 10%. Catota acabou se lembrando de algo que deveria ter feito no passado quando teve dinheiro. Gastou cada centavo do que tinha em cadernos. Pobre Catota, mal sabia o que estava fazendo. Pobre Catota, não tinha noção do quanto valia doze milhões nem da quantidade que seria isso em cadernos.

Sem ter idéia do que tinha feito, Catota começou a vender cadernos. Os primeiros compradores foram os garotos das ONGs; aparentemente eles realmente usavam cadernos, Catota nem imaginava como. Os segundos compradores foram donos de papelarias; esses vieram reclamando do preço, da qualidade, do governo, da concorrência e da safra de trigo. O terceiro comprador foi o governo, que chegou acusando Catota de monopólio, dumping e formação de quadrilha. Os cadernos foram confiscados para o bem público e Catota foi indiciado criminalmente. Pobre Catota, perdeu tudo antes de ter noção de quanto tinha. Pobre Catota, experimentou sua segunda certeza: nunca seguir conselhos de garotos de ONGs.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Coitados

Acabei ficando com pena desses hackers aqui. Ser obrigados a ler Sagarana e Vidas Secas e além de tudo fazer um resumo de dez páginas me parece um tratamento desumano a qualquer um. Antes a cadeia ou o trabalho social com os meninos das favelas.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Botchan

Toda universidade pública tem locais obscuros onde seres estranhos habitam. No caso da UFPE, a Biblioteca Central é o lar destes seres (dizem que seres mais estranhos habitam no centro de artes. Até agora ninguém são voltou para contar a experiência). Nesta biblioteca os livros estão em tal estado de abandono que poderiam ser considerados seres vivos pela quantidade de fungos que neles habitam. Além disso, famílias inteiras de ácaros vagam por aquela terra santa.

Foi andando por lá para matar o tempo que achei uma pérola. Um livro novo que brilhava na prateleira chamou minha atenção. Em três segundos percebi que ele ia ser roubado, pois alguma anta pública colocou a tarja magnética na contra-capa removível. No quarto segundo me surpreendi, pois o prefácio comparava esse livro as Aventuras de Huckleberry Finn e a Catcher in the Rye. Saí de lá feliz com o livro.

Ainda assim, o autor era um japa e isso sempre me dá a sensação de que vai sair algo semelhante a anime, mesmo que a obra tenha sido escrita em 1902. Botchan conta a história de um jovem revoltado que por sua própria porra-louquice acabou como professor de matemática em um lugar perto do fim do mundo onde se mete em muita confusão causada por pessoas sem moral e noção de honra (macacos do interior, na sua própria definição).

O primeiro capítulo do livro é genial. Lá Botchan apresenta toda sua capacidade de se meter em confusão e também sua honra em assumi-las. Nada de sair se escondendo por ai ou fingindo que não fez nada. Quando ele se forma e sai de Tóquio, Botchan passa a ter que conviver com pessoas dissimuladas e covardes no interior do Japão. Não pude deixar de pensar em Ayn Rand com seu mundo dominado por saqueadores morais. Natsume Soseki coloca Botchan contra o sistema, mas é impossível de levar o protagonista a sério. Suas brigas e seus protestos são tão infantis quanto a cara de pau dos outros. E assim ele segue sem perceber um palmo diante de seu nariz e agindo sem pensar.

As vezes parece que o autor quer mostrar o Japão em transição do feudalismo fechado para um império mundial. Botchan parece um samurai com 100% de honra e nenhum neurônio e todo o resto é rato capitalista querendo perverter o sistema. No fim das contas o autor só queria contar uma história de um professor falando mal dos alunos e mostrar que aquele tal 'futuro da nação' não passava de um bando de arruaceiros.

Não vai emocionar nem fazer alguém mijar de rir, mas vale a leitura. Até porque daqui a alguns dias seremos nós a falar mal da juventude.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Peter Pan

Esta obra de J. M. Barrie é um belíssimo conto de fadas... Eu deveria parar por aqui, mas ia ficar com a sensação de post desperdiçado. O que me faz sentir que não precisaria dizer mais é o fato deste livro ter uma interpretação muito pessoal. Isso é completamente óbvio, mas é que ele acaba fazendo a gente refletir sobre diversos temas não relacionados diretamente com o livro. É o popular abaixar o livro e olhar perdido para cima em algum outro pensamento completamente aleatório.

Nisso ele me lembra O Pequeno Príncipe. Não por causa de todo aquele lero-lero emocional e bonitinho, mas pela capacidade de propor ou tecer reflexões de acordo com nossa vivência. Quem o ler com 15 anos, vai ter uma interpretação diferente de quem o lê com 20 e assim por diante. Creio que só lá para os 40 ou 50 é que se pode ter uma interpretação plena da obra (mas se você interpretou e deduziu tudo que está lá escondido antes, então você é uma pessoa velha e convencida).

Peter Pan é um conto de fadas por natureza (dã). Mas basicamente ele narra as aventuras de Wendy e seus irmãos em Neverland (Terra do Nunca, todo mundo com mais de 18 anos lembra). Neverland é uma terra real apenas para seus habitantes, mas recebe sempre a visita imaginária de todas as crianças que sonham. Não é preciso dizer que lá há um espaço para todo tipo de magia.

Peter Pan é alma de Neverland. Ele é a personificação de todas as crianças. De todas as suas aventuras, coragem, dúvidas, medos, criatividade e por ai vai. Mas a principal qualidade de Peter (além de não envelhecer e de voar) é a sua arrogância. É nela que está toda sua força e é por ela que todos são atraídos. E não como dizer que arrogância é uma parte fundamental da infância? a diferença é que Peter era arrogante porque ele tem plena confiança em tudo que faz e realmente consegue fazê-lo. E lá temos a criança perfeita.

Mas o que me surpreendeu não foi nenhuma das crianças, mas sim o Capitão James Hook (Gancho, dã). Amargurado, medroso e vingativo. O cruel pirata que no fundo só parecia querer ser criança. Ele tenta conversar algumas vezes com seus homens, mas estes parecem burros demais para entendê-lo. Tadinho dele. Deu até vontade de assistir Hook de novo e desta vez torcer pelo capitão.

Há algo que não pode deixar de ser dito. Apesar de ser um livro fabuloso, esta é uma fábula para garotas. Mas isto não é exclusivo. Essa orientação vem da narradora Wendy que consegue ser com Peter irmã, amiga, namorada, esposa e mãe. Mas Peter só admite crianças como mães. Assim que sua atual mãe cresce, ele logo a esquece e procura outra. E é assim que no final Peter vira a própria infância. O que me leva a pensar em assistir Hook novamente: 'e se Peter Pan crescesse?'.

Enfim, admito que o livro ainda me faz pensar num monte de besteiras aleatórias. Mas é um livro realmente belo e empolgante. Uma leitura para uma vida inteira.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Espaço Público

Após ler um pouco a constituição e observar o funcionamento de uma Assembléia Legislativa cheguei a uma conclusão bem simples: Toda Assembléia é um Diretório Acadêmico. Isso acontece porque ela é praticamente impedida de legislar sobre qualquer besteira porque o Congresso e o Senado já são responsáveis por tudo nesse país.

Só para não dizer que não fazem nada: eles tem que aprovar os planos-plurianuais e orçamentos do governo todo ano. Isso consiste em ouvir o Secretário da Fazenda por horas sem fim até alguém dizer: "chega! vamos jantar". No mais, só ficam levantando discussões sabe-se lá o por quê.

Mas o que é realmente pior nisso tudo é o nível das discussões. Audiências públicas são montadas somente para quem é a favor do que está sendo discutido. Houve uma bem legal que era sobre presídios femininos e os riscos que os filhos de almas sebosas corriam lá dentro. Ai do nada aparece uma dessas figuras feministas e racistas negras que dizia que deveria ser estudado com atenção o caso das mães negras e dos filhos negros (porque branco não precisa de nada). Ou então, quando se discute a questão de pesquisas com células tronco só chamando pesquisadores. Ou a questão do açúcar e do álcool só com a presença de plantadores de cana.

Tudo observando o mesmo critério de diversidade de opinião presentes nos diretórios acadêmicos.

Mas é nos encaminhamentos que uma Assembléia fica igual a um DA, pois após horas de discussão, alguém percebe que não há nada a ser feito e simplesmente nada acontece. Até porque não se aprova nada em audiência. É só um espaço, hã, para o povo falar. Muito útil por sinal.

Mas ok, Assembléias podem conceder título de cidadão! Sempre a pessoas muito importantes para o estado, como Fernando Henrique Cardoso é para, hã, Pernambuco.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Rebels on the Air

Qualquer livro técnico, ou que trate de algo mais ou menos acadêmico, ou que simplesmente trate da história de alguma coisa, é chato, certo? Sim. Mas temos que observar qual história seria essa primeiro (óbvio). E se o livro tiver capa vermelha, estrelas e um nome de música punk ou metal melódico então há que se ter algum receio.

Por sorte, Rebels on the Air só me parece nome de banda punk ou música de metal. De resto, Jesse Walker apenas se propõe a conta a 'história alternativa do rádio na América [do Norte]'. É o tipo de coisa que um aluno barbudo de comunicação usando roupas velhas faria. Mesmo assim é surpreendentemente muito bom (apesar disso ainda acho que ele deve ser um coroa, barbudo, de camisa de banda preta do Scorpions ou do Iron Maiden).

Ele narra o surgimento da rádio nos EUA e como os amadores foram os pioneiros do espectro. Esses amadores eram verdadeiros 'exploradores do éter'. E ao final da Grande Guerra conseguiram dobrar a marinha (que aspirava pelo monopólio do espectro nacional) ao mostrar que eles eram muito mais capazes que os técnicos treinados pelo exército. Eram tão mais capazes que até aprenderam a explorar comercialmente aquele novo espaço real.

O autor também fala das evoluções técnicas do rádio e de como o FM foi descoberto por acidente por meio do popular 'atirar no que viu e acertar o que não viu'. E também de todas as brigas que a FCC gerou com o sistema de concessão tão bizarro quanto o brasileiro.

Mas a real defesa que Walker faz do rádio é a criatividade. Ele constata que a liberdade e a criatividade são coisas juntas e por as rádios alternativas e piratas conseguiram ir da genialidade a podridão. E esse tipo de coisa só aparece quando a liberdade é total. O curioso é que assim ele acaba defendendo todo tipo de rádio: hippies, yuppies, niggers, revolucionários, latinos, judeus ortodoxos, todos deveriam ter a sua parte no espectro dar asas a suas imaginações por mais bizonhas que elas venham a ser (os exemplos provam que isso pode ser realmente bizonho).

Depois ele entra numa parte desnecessária e desatualizada. Fala de liberdade de um lado mais político. Ataca o então senador McCain que estaria sendo um grande problema para as pequenas rádios. E fala de podcasts, rádios digitais e a internet como um novo retorno ao tempo dos amadores.

Eu não queria dizer isso, mas o livro é de fato um relato apaixonado sobre o rádio e é bom de ler até para quem não gosta de rádio (como eu, por exemplo).